"Posso não concordar com o que você diz, porém, farei de tudo para que seja ouvido" Voltaire

O presidente de Cuba, Raúl Castro, fez um pedido para que se estabeleçam "relações civilizadas" com os Estados Unidos, dizendo que os dois países devem respeitar suas diferenças.
O líder cubano, irmão de Fidel Castro, afirmou ainda que os EUA deveriam abandonar suas exigências de mudança do regime, para que os dois países possam continuar trabalhando para melhorar suas relações.

Os EUA romperam relações com Cuba em 1961, depois da revolução na ilha, e mantém um embargo econômico contra o país.
Seus comentários ocorrem depois de um aperto de mão público com o presidente Barack Obama no funeral de Nelson Mandela, na África do Sul, no início de dezembro.

'Respeito mútuo'

Em um discurso público incomum, o presidente Castro revelou que funcionários cubanos e americanos se reuniram diversas vezes durante o último ano, para discutir assuntos práticos como imigração e um reestabelecimento de um serviço de correio entre os países.
Isso demonstra que as relações podem ser civilizadas, disse Castro.
No entanto, ele advertiu que "se realmente queremos avançar nas relações bilaterais, teremos que aprender a respeitar mutuamente nossas diferenças e nos acostumarmos a conviver pacificamente com elas". Caso contrário, disse ele, os cubanos estariam dispostos a outros 55 anos como os anteriores.
"Não pedimos que os Estados Unidos mudem seu sistema político e social, nem aceitamos negociar o nosso", afirmou Castro aos deputados durante a última sessão do ano da Assembleia Nacional.
As relações entre os dois vizinhos melhoraram um pouco recentemente, mas ainda há obstáculos para uma reconciliação, disse a correspondente da BBC em Havana, Sarah Rainsford.

Reformas

Desde que Raúl Castro recebeu o poder de seu irmão Fidel, em 2006, ele deu início a um programa de reformas econômicas que ajudaram a relaxar as tensões com os EUA.

No entanto, os críticos dizem que as mudanças estão sendo muito lentas.
Castro e Obama | Foto: AP
Aperto de mão entre líderes gerou expectativa
de melhores relações entre Cuba e EUA
"Os que nos pressionam para andarmos mais rápidos querem nos levar ao fracasso", argumentou Castro em seu discurso.
As reformas, segundo ele, pretendem "atualizar" o modelo socialista, mas não devem incluir pacotes de ajuste econômico, ao modelo europeu.
"Nunca admitiremos em Cuba terapias de choque revolucionárias como as que estamos vendo na rica e dita culta Europa, que mergulhariam o país em um clima de divisão e desestabilidade que sirva de pretexto para aventuras intervencionistas contra a nação."
Entre as mudanças mais recentes está o anúncio do fim das restrições à compra e venda de carros particulares novos e usados.
Agora, qualquer indivíduo com dinheiro suficiente poderá comprar um veículo de uma concessionária estatal. Até então, só pessoas que tinham autorizações especiais podiam fazê-lo.

O líder cubano não mencionou o aperto de mão com Barack Obama, mas a cena gerou expectativas sobre um avanço nas relações bilaterais.

Fonte: BBC Brasil

Tem certeza que o passado esta morto? Estamos vivendo uma onda neonazista no Ocidente, diz socióloga

 Carla Cristina Garcia – PUC-SP
Nesta semana, o jogador da seleção da Croácia Josip Simunic foi banido pela Fifa e está fora da Copa do Mundo de 2014. O zagueiro, após a vitória sobre a Irlanda (em novembro), pegou o microfone e entoou cânticos nazistas com o apoio da torcida. A Fifa considerou inadequada a postura do atleta.
Porém, o caso do desportista não é um fato isolado, principalmente diante dos últimos ocorridos na Europa. No começo deste ano, Paris foi palco de uma manifestação contrária ao casamento igualitário, que reuniu cerca de 1,5 milhão de pessoas, porém, o presidente Hollande peitou os grupos conservadores e fez campanha pessoal pela aprovação do projeto, fato que ocorreu em maio.
Na Grécia, foram eleitos seis parlamentares do partido Aurora Dourada, assumidamente neonazista. Recentemente, o líder do partido, Nikos Mihaloliakos, foi preso acusado de fazer parte de um grupo clandestino neonazista envolvido em assassinatos e lavagem de dinheiro. Outros três parlamentares do Aurora Dourada foram presos sob a mesma acusação.
Mas não é apenas na Europa que os ideais eugenistas (base da ideologia nazista) ressurgem, nos EUA e Brasil também. Lá como cá, esses grupos estão organizados nos partidos políticos, nas assembleias e nos meios de comunicação. Os discursos são os mesmos: anti-políticas raciais, contrários a qualquer avanço na legislação no que diz respeito às LGBT e aborto e, principalmente, sobre políticas de drogas.
No Brasil, por exemplo, mais de uma vez, o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) declarou que a África é um “continente amaldiçoado” e que o líder Nelson Mandela implantou a “cultura de morte na África do Sul”. E os companheiros de bancada do pastor propagam a ideia de que homossexuais são doentes passíveis de cura. São pensamentos que lembram os eugenistas no século XIX. Com os ativistas do Tea Party norte-americano (ala radical do Partido Republicano) se dá o mesmo.
Com este cenário que se espalha por vários países, será possível afirmar que o Ocidente vive uma nova onda eugenista/neonazista? Para a socióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carla Cristina Garcia, não há dúvidas de que vivemos uma nova onda das teses que fundaram o nazismo. Garcia, que também coordena o núcleo de pesquisa sobre feminismo e sexualidades – Inanna – diz que é correto falar em nova onda, pois, as ideias que têm permeado o ideário conservador do Ocidente, nunca deixaram de existir, mas, neste momento, ganham nova força com a ascensão dos movimentos mais progressistas.
Revista Fórum – Nesta semana, um jogador da Croácia foi expulso da seleção por ter cantado cânticos nazistas ao fim de uma partida em novembro com o apoio da torcida; neste ano, membros do partido grego neonazista Aurora Dourada foram presos depois que investigação descobriu que eles faziam parte de uma quadrilha nazista; no Brasil setores sociais e políticos têm propagado o discurso de ódio contra LGBT, mulheres, aborto, droga… Pode-se dizer que o Ocidente vive uma nova onda eugenista?
Carla Cristina Garcia - Sem dúvida alguma vivemos uma nova onda do pensamento eugenista e é bom frisar o termo onda, pois a ideia, ou melhor, o ideal eugênico nunca desapareceu da sociedade ocidental.
Talvez seja importante lembrar que todas as teorias racistas modernas são fruto do pensamento eugenista, mais precisamente norte-americano, que desenvolveu um tipo específico de eugenia, conhecida como “eugenia negativa”: eliminação das futuras gerações de “geneticamente incapazes” – enfermos, racialmente indesejados e economicamente empobrecidos –, por meio de proibição marital, esterilização compulsória, eutanásia passiva e, em última análise, extermínio. O aumento no número de imigrantes no final do século XIX levou o grupo dominante no país, os protestantes cujos ancestrais eram oriundos do norte da Europa, a buscar motivos para exclusão. Encontraram terreno fértil na pseudociência da eugenia.
Os eugenistas usaram os últimos conhecimentos científicos para “provar” que a hereditariedade tinha papel-chave em gerar patologias sociais e doenças. Os imigrantes tornaram-se alvos fáceis de defensores dessa nova “ciência”, que empregaram os achados do movimento eugênico para construir a imagem dos imigrantes como pessoas deformadas, doentes e depravadas, encontrando eco em seus contemporâneos nas ciências sociais e na biologia, entre os quais a eugenia propagou-se como algo considerado perfeitamente lógico.
Fórum – Esse retorno do discurso eugenista em vários países pode ser uma volta do discurso (se é que um dia ele já se foi) do Ocidente enquanto sujeito branco e familista?
Carla Cristina Garcia - Eu não chamaria de retorno do discurso eugenista, pois acredito que este nunca foi deixado de lado, todas as manifestações xenofóbicas por todo o mundo ocidental, o ódio ao estrangeiro propagado em muitos países europeus, além de exibir toda a questão do pensamento colonial, também demonstra claramente que xenofobia e eugenismo são frutos do mesmo tipo de pensamento eurocêntrico, branco e patriarcal.
Fórum – Acompanhamos nos últimos meses o acirramento entre a bancada fundamentalista e os setores progressistas pró-LGBT, que terminou ontem com a vitória dos religiosos ao enterrarem o PLC 122 sob argumentos bíblicos. Por que é tão difícil se fazer aplicar o Estado Laico?
Carla Cristina Garcia - O problema aqui é muito mais complexo do que parece. Primeiro: há dois direitos individuais em conflito: o que assegura a liberdade religiosa e o que assegura a liberdade de consciência. As pessoas têm o direito de serem religiosas ou ateias, sem darem qualquer explicação. Acreditam ou deixam de acreditar como bem quiserem, e qualquer constrangimento a esses direitos é inconstitucional.
Segundo, o Estado é laico. Ser laico não significa ser ateu. Ser laico significa não tomar partido. Não cabe ao Estado defender essa ou aquela denominação ou agremiação religiosa, e tampouco cabe ao Estado pregar o ateísmo. Cabe ao Estado defender o direito das pessoas, individualmente, escolherem (ou não terem de escolher) se e no que acreditarem. Se alguém resolver acreditar no Coelhinho da Páscoa, cabe ao Estado laico defender tal direito.
Sobre aqueles que estão exercendo um cargo público são agentes do Estado. Logo, ele ou ela o representa perante a sociedade e, por isso, sua liberdade religiosa deve ser ainda mais resguardada enquanto estiver no exercício de sua função. Não há dúvida que ela pode rezar em casa ou no templo, independente de qual seja sua profissão. Mas, em sua vida política, ela é o Estado. E o Estado é laico. Como representante do Estado, ela não deve preferir (ou proferir) uma religião.
Fórum – Além dos LGBTs, temos acompanhado o fortalecimento dos discursos contra indígenas, negros, usuários de drogas, mulheres e outros difamados. Na sua opinião, estes sujeitos, historicamente subalternizados, deixarão um dia a condição de sujeitos silenciados e difamados?
Carla Cristina Garcia - Há uma nova movimentação no mundo todo contra os abusos do capitalismo e do pensamento colonial. Acredito que a luta por direitos ainda está longe de acabar. Estas novas configurações dos movimentos sociais podem levar a um recrudescimento das forças conservadoras ou podem levar a outro tipo de organização social mais efetiva.

Multilinguismo no Alto Rio Negro, no Amazonas: uma herança ameaçada

A modernidade da vida urbana se agrega à tradição da cultura indígena em várias casas da cidade de Manaus, no Amazonas. São famílias inteiras que vêm para a capital amazonense em busca de um futuro promissor para seus descendentes. Deulinda Freitas e Judite Martins são mulheres da etnia Desana, que fazem parte do Grupo de Mulheres Indígenas e, como tantas outras, têm em sua história o desejo de uma vida digna e o medo de que sua cultura se perca pelo esquecimento com o passar do tempo.

história se repete entre as etnias do Alto Rio Negro no Amazonas. Na região, é normal uma única pessoa falar no mínimo três línguas. As crianças aprendem a falar a língua do pai, da mãe e mais uma por convivência com outras crianças. Segundo a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Ana Carla Bruno, doutora em linguística e Antropologia, praticamente todo indivíduo conhece fluentemente três, quatro ou mais línguas. “Apenas os Makú e alguns não-indígenas não são multilíngues”, afirma.
Na definição do dicionário Aurélio, língua é “o conjunto das palavras e expressões, faladas ou escrita, por um povo, por uma nação”. Em sua pesquisa, Ana Carla discorre sobre a situação de multilinguismo encontrado no noroeste amazônico, analisando a interação entre língua e cultura de toda sociedade. Ela conta que a pesquisadora russa Alexandra Aikenvald observou que, quando encontravam os Tukanos, os indígenas Tarianos não falavam tariano e sim tukano. Foi quando ela começou a pensar sobre o assunto: “o será que está acontecendo com os tarianos? Será que estão perdendo a língua?”.
Dentro do sistema multilíngue existe a ideia que todas as línguas são iguais, nenhuma é mais importante que a outra. Mas, no prática, não é isso que ocorre. “O grupo Tukano tem maior número de falantes. É o processo que esta acontecendo no Alto Rio Negro. Muitas das etnias terminam cedendo à língua tukano, por isso Aikenvald atenta para um processo de tukanização”, afirma Ana Carla.
Língua, cultura e sociedade
A artesã do Grupo de Mulheres Indígenas, Deulinda Freitas Prado, 62, da etnia Desana, fala o português e tukano que é sua língua materna. Ela saiu da aldeia que morava com seus pais aos 22 anos para trabalhar com artesanato junto às freiras. “Depois comecei a trabalhar em casa de famílias, como auxiliar do lar, e quando eu tinha 35 anos comecei a trabalhar no movimento indígena em outro lugar fora da cidade”, conta Freitas.

Aos 40 anos se casou com um indígena da etnia Tariano, com quem teve um filho, Roberto. Hoje com 20 anos, nascido em Manaus, fala apenas português, e segundo sua mãe, não se interessou em aprender a língua dos pais. “Ele até entende algumas coisas que falamos em tukano, mas falar mesmo ele não fala nada. Eu queria muito que ele aprendesse a falar e escrever em tukano, mas como ele se criou aqui em Manaus e já está adulto, acho que não tem mais jeito”, relata.

São vários motivos que levam os indígenas a parar de usar a seu próprio idioma. “As pessoas deixam de usar sua língua, às vezes, por vergonha, por não escutar os pais dentro de casa. E temos que ver que no mercado linguístico. Algumas línguas são mais valorizadas que outra, e não podemos esquecer que dentro desse sistema, também tem o espanhol. Por conta da fronteira, muitos indígenas falam espanhol, além do português”, explica Bruno.
No cotidiano, explica a pesquisadora, em que os sujeitos sociais buscam cada vez mais se qualificarem para o mercado de trabalho, muitos indígenas pensam dessa forma: “Para que eu vou aprender tantas línguas indígenas, se o mais importante é o português?”. Exemplo disso é a aplicação de um vestibular. “Apesar da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) motivarem estudantes indígenas no estudo de suas culturas e línguas, as trajetórias dos indivíduos e de suas famílias muitas vezes suscitam exatamente o oposto”, relata a pesquisadora.
Uma grande questão observada por pesquisadores que trabalham no Alto Rio Negro é se o sistema multilíngue está se mantendo com estas condições adversas. “Mesmo na cidade de São Gabriel da Cachoeira, interior do Amazonas, os grupos ainda tentam se casar com alguém que tenha uma língua diferente da sua. Não é apenas nas aldeias que o sistemas se mantém, mas percebe-se que o sistema tem se quebrado, enfraquecido com o passar do tempo, e isso é preocupante”, comenta Bruno.
A pesquisadora relata que em 2000 começou uma grande discussão para a oficialização de línguas indígenas em São Gabriel da Cachoeira (AM). “Os indígenas pensavam: porque aqui que têm mais de 20 línguas indígenas e apenas o português é oficial. Quando vamos aos hospitais, cartórios e lojas não somos atendidos nas nossas línguas?”. Dessa forma a movimentação entre próprios indígenas, juntamente com alguns estudiosos, foi grande para cooficializar algumas línguas.
Daí foi pensado em quais línguas deveriam ser cooficializadas. As discussões levaram que deveriam ser as que tivessem maior número de falantes. Então foi escolhido o “nheengatu”, que é uma língua franca, “tukano”, e “baniwa”, para serem línguas cooficiais naquelas regiões também, conta a antropóloga. “Através de uma discussão na Câmara dos Vereadores e com a Prefeitura, eles conseguiram cooficializar mais três línguas naquela região, além do português”, relata.
O problema é que sendo cooficiais, essas línguas deveriam estar presentes nas informações da cidade, assim como está em português. “Deveriam ter placas com informações nas três línguas, e não é o que acontece. Não é algo fácil. Como é que você traduz o universo jurídico expressões que não existem na língua indígena?”, argumentou a pesquisadora.
A grande questão seria: o que o governo pode fazer para que essas línguas e outras tantas línguas de etnias indígenas do Amazonas sejam preservadas? Nesse sistema de resgate da cultura, a própria população pode fazer sua parte e buscar informações sobre sua cultura local, conhecer, saber e apreciar a história dessas etnias, antes que essas línguas indígenas desapareçam, como várias outras já desapareceram.

José Pacheco: “Brasil despreza seus educadores geniais”

Criador da Escola da Ponte, em périplo pelo país, afirma: “além de Paulo Freire, outros brasileiros poderiam revolucionar ensino; burocracia estatal os sufoca”
Por Simone Harnik
Idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, instituição que, em 1976, iniciou um projeto no qual os estudantes aprendem sem salas de aula, divisão de turmas ou disciplinas, o educador português José Pacheco afirma que as escolas tradicionais são um desperdício para os estudantes e os professores.
“O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares”, diz. “Dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão.”
Aos 58 anos, o professor que classifica autores como Jean Piaget como “fósseis”, fez uma peregrinação pelo país. No trabalho de prospecção de boas iniciativas em colégios brasileiros, Pacheco só não conheceu instituições do Acre e do Amapá e diz ter somado cerca de 300 voos no último ano.
Com a experiência das viagens, escreveu dois livros de crônicas: o “Pequeno Dicionário de Absurdos em Educação”, da editora Artmed, e o “Pequeno Dicionário das Utopias da Educação”, da editora Wak. Aponta ainda que a educação brasileira não precisa de mais recursos para melhorar: “O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os desperdiça”. Veja a entrevista:
Em suas andanças pelo país, qual o absurdo que mais chamou sua atenção?
O maior absurdo é que a educação do Brasil não precisa de recursos para melhorar. O Brasil tem tudo o que precisa, tem todos os recursos e os desperdiça.
Desperdiça como?
Pelo tipo de organização. A começar pelo próprio Ministério da Educação. Eu brinco, por vezes, dizendo que o melhor que se poderia fazer pela educação no Brasil era extinguir o Ministério da Educação. Era a primeira grande política educativa.
Qual o problema do ministério?
Toda a burocracia do Ministério da Educação que se estende até a base, porque a burocracia também existe nas escolas, à imagem e semelhança do ministério. No próprio ministério, o contraste entre a utopia e o absurdo também existe. Conheço gente da máxima competência, gente honesta. O problema é que, com gente tão boa, as coisas não funcionam porque o modo burocrático vertical não funciona. É um desperdício tremendo.
Como resolver?
Teria de haver uma diferente concepção de gestão pública, uma diferente concepção de educação e uma revisão de tudo o que é o trabalho.
O que teria de mudar na concepção de educação?
O essencial seria que o Brasil compreendesse que não precisa ir ao estrangeiro procurar as suas soluções. Esse é outro absurdo. Quais são hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky [Lev S. Vygotsky (1896-1934)], Piaget [Jean Piaget (1896-1980)]? Não vejo um brasileiro. Mas podem dizer: “E Paulo Freire?”. Não vejo Paulo Freire em nenhuma sala de aula. Fala-se, mas não se faz.
Identifiquei, nos últimos anos, autores brasileiros da maior importância que o Brasil desconhece. Esse é outro absurdo. Quem é que ouviu falar de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918)? De Tomás Novelino (1901-2000)? De Agostinho da Silva (1906-1994)? Ninguém fala deles. Como um país como este, que tem os maiores educadores que eu já conheci, não quer saber deles nem os conhece?
Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.
O que tinha de tão arrojado?
Primeiro, na época, era proibida a educação de moços e moças juntos. Só durante o governo Getúlio Vargas é que se pôde juntar os dois gêneros nos colégios. Ele [Barsanulfo] fez isso. Ele tinha pesquisa na natureza, tinha astronomia no currículo oficial. Não tinha série nem turma nem aula nem prova. E os alunos desse liceu foram a elite de seu tempo. Tomás Novelino foi um deles e Roberto Crema, que hoje está aí com a educação holística global, foi aluno de Novelino.
Por que o senhor fala desses autores?
Digo isso para que o brasileiro tenha amor próprio, compreenda aquilo que tem para que não importe do estrangeiro aquilo que não precisa. É um absurdo ter tudo aqui dentro e ir pegar lá fora.
Qual foi a maior utopia que o senhor viu?
O Brasil é um país de utopias, como a de Antônio Conselheiro e a de Zumbi dos Palmares. Fui para a história, para não falar em educação. Na educação, temos Agostinho da Silva, que é um utópico coerente, cuja utopia é perfeitamente viável no Brasil. Ou seja, é possível ter uma educação que seja de todos e para todos. O Brasil, dentro de uns 30 ou 40 anos, será um país bem importante pela educação. São os absurdos que têm de desaparecer, para dar lugar à concretização das utopias. Acredito nisso, por isso estou aqui.
 Os professores são resistentes às mudanças? 
Os professores são um problema e são a solução. Eu prefiro pensar naqueles professores que são a solução, conheço muitos que estão afirmando práticas diferentes.
Práticas diferentes como a da Escola da Ponte?
Não são “como”, mas inspiradas, com certeza. São práticas que fazem com que a escola seja para todos e proporcione sucesso para todos.
Dentro da escola tradicional, onde ocorre o desperdício de recursos?
Se considerarmos o dinheiro que o Estado gasta por aluno, daria para ter uma escola de elite. Onde o dinheiro se desperdiça? Por que em uma escola qualquer, que tem turmas de 40 alunos, a relação entre o número de professores e de alunos é de um para nove? Por que os laudos e os atestados médicos são tantos? Porque a situação que se criou nas escolas é a do descaso. Esse é um absurdo.
Onde mais ocorre o desperdício nas escolas?
O desperdício de tempo também é enorme em uma aula. Pelo tipo de trabalho que se faz, quando se dá aula, uma parte dos alunos não tem condições de perceber o que está acontecendo, porque não têm os chamados pré-requisitos, e se desliga. Há um outro conjunto de crianças que sabem mais do que o professor está explicando – e também se desliga. Há os que acompanham, mas nem todos entendem o que o professor fala. Em uma aula de 50 minutos, o professor desperdiça cerca de 20 horas. Se multiplicarmos o número de alunos que não aproveitam a aula pelo tempo, vai dar isso.
O desperdício maior tem a ver com o funcionamento das escolas. Os professores são pessoas sábias, honestas, inteligentes e que podem fazer de outro modo: não dando aula, porque dar aula não serve para nada. É necessário um outro tipo de trabalho, que requer muito estudo, muito tempo e muita reflexão.
As famílias não estão acostumadas com escolas que não têm classe, professor ou disciplinas. Querem o conteúdo para o vestibular. Como se rompe com esse tipo de mentalidade?
Pode-se romper mostrando que é possível. Eu falo do que faço, e não de teorias. O que fiz por mais de 30 anos foi uma escola onde não há aula, onde não há série, horário, diretor. E é a melhor escola nas provas nacionais e nos vestibulares. Justamente por não ter aulas e nada disso.
Por que uma escola que não tem provas forma alunos capazes de ter boas notas em provas e concursos?
Exatamente por ser uma escola, enquanto as que dão aulas não são. As pessoas têm de perceber que não é impossível. E mais, que é mais fácil. Posso afirmar, porque já fiz as duas coisas: estive em escolas tradicionais, com aulas, provas, com tudo igualzinho a qualquer escola; e estive também 32 anos em outra escola que não tem nada disso. É mais fácil, os resultados são melhores.
Na concepção do senhor, o que é uma boa escola?
É a aquela que dá a todos condições de acesso, e a cada um, condições de sucesso. Sucesso não é só chegar ao conhecimento, é a felicidade. É uma escola onde não haja nenhuma criança que não aprenda. E isso é possível, porque eu sei que é. Na prática.
O professor que está em uma escola tradicional tem espaço para fazer um trabalho diferente? O senhor vê espaço para isso?
Não só vejo, como participo disso. No Brasil, participei de vários projetos onde os professores conseguiram escapar à lógica da reprodução do sistema que lhe é imposto. Só que isso requer várias condições: primeiro, não pode ser feito em termos individuais; segundo, a pessoa tem de respeitar que os outros também têm razão. Se, dentro da escola, os processos começam a mudar e os resultados aparecem, os outros professores se aproximam. Não tem de haver divisionismo.
O senhor acha que a mudança na estrutura da escola poderia partir do poder público ou depende da base?
Acredito que possa partir do poder público, mas duvido que aconteça. As secretarias têm projetos importantes, mas são de quatro anos. Uma mudança em educação precisa de dezenas de anos. Precisa de continuidade. E isso é difícil de assegurar em uma gestão. Precisa partir de cada unidade escolar e do poder público juntos.
Fonte:  Uol Educação

Urbanização incompleta é estratégia do capital

Por Camila Nobrega e Rogério Daflon
Harvey, que está no Brasil para o lançamento do livro “Os limites do capital” em português, pela Boitempo, desafia o coro dos contentes sem qualquer bravata. Age assim porque vê um mundo com cada vez menos gente satisfeita com os rumos do capitalismo. Sem palavras de ordem e dispensando clichês, o geógrafo diz que há uma atmosfera para se criar um grande movimento anticapitalista. Ele vislumbra uma convergência entre os protestos no Brasil, a revolta da Praça Tahrir (na Tunísia) e outras manifestações internacionais : “Atualmente, quando um presidente diz ‘o país está indo muito bem’, ele quer dizer que o capital está indo bem, mas as pessoas estão indo mal.” Nesta entrevista, Harvey explica o porquê de tanta insatisfação.
Canal Ibase: Com os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo, nunca foi tão caro morar no Rio de Janeiro. E isso está impactando a renda de todas as classes sociais na metrópole. Mas é claro que as classes mais pobres são as mais prejudicadas. Qual serão, na sua opinião, as consequências dessa segregação?
David Harvey: O interesse que o capital tem na construção da cidade é semelhante à lógica de uma empresa que visa ao lucro. Isso foi um aspecto importante no surgimento do capitalismo. E continua a ser. Após Segunda Guerra, por exemplo, os Estados Unidos construíram os subúrbios de uma maneira muito rentável. O que temos visto, nos últimos 30 anos, é a reocupação da maioria dos centros urbanos com megaprojetos. Muitos desses projetos associam a urbanização ao espetáculo. E fazem um retorno à descrição de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo.  Faz todo sentido na diretriz da realização dos megaeventos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. O capital precisa que o estado assegure essa dinâmica. Assim, pode usar esses eventos como instrumentos de investimentos e mais lucratividade. Invariavelmente, entre as consequências dos megaeventos estão as remoções de pessoas de algumas áreas. Eles dependem disso para serem realizados. E essa situação tem causado revolta. De um lado, o capital vai muito bem, mas as pessoas vão mal. Há alguma geração de empregos, em função dos megaprojetos e megaeventos, mas o que se vê é o desvio da verba pública para apoiar essas empreitadas. Ao redor do mundo, tem havido muitos protestos devido à retirada de pessoas de suas residências. As populações percebem que o dinheiro dos impostos está indo para esses fins, em detrimento da construção de escolas e hospitais. Este é um contexto que ilustra como o capital gosta de construir as cidades, à diferença do que é a cidade em que as pessoas podem viver bem. Há um abismo entre essas duas propostas. Essa é a grande briga, porque enquanto o capitalismo quer desempoderar pessoas, a fim de reproduzir a si próprio, elas querem verbas para outras coisas. O grande problema é que a tendência é a dominação do capital sobre o poder político nas cidades. O financiamento das campanhas políticas é um instrumento para que isso aconteça. Trata-se de controle sobre a representação política. Essa lógica tem ocorrido em vários lugares do mundo, não só na viabilização de megaeventos no Brasil. Trata-se de um processo padrão. Remete à Coréia do Sul, em Seul (Olimpíadas de 1988). E também à Grécia. Se pensarmos na Grécia hoje, um país que sediou as Olimpíadas (Atenas, em 2004), vemos que esses eventos não costumam trazer grandes benefícios econômicos. O país está numa profunda crise econômica. Há grandes estádios construídos mas, a longo prazo, essas edificações gigantes não trazem vantagens para o país.
Canal Ibase: Mas, e quanto à Barcelona, que aqui no Brasil é um dos exemplos mais disseminados como uma cidade que aproveitou muito bem um megaevento?
Harvey: Bem, eu acho que Barcelona era uma excelente cidade antes das Olimpíadas (de 1992). Eu nem gosto de voltar muito lá. Costumo dizer que o ápice da cidade foi antes das Olimpíadas. Depois disso, foi ladeira abaixo.
Canal Ibase: Na África do Sul, muitas pessoas foram expulsas de suas casas devido às obras relacionadas à Copa do Mundo…
Harvey: Exatamente. O problema das remoções tem sido recorrente. Há muita luta em torno disso. Isso é típico. Se há pessoas pobres vivendo em terras muito valorizadas, há uma tentativa de tirá-las de lá. Uma forma de levar isso a cabo é o aumento do custo de vida. Os megaprojetos também são uma excelente desculpa.
Canal Ibase: Qual é sua reflexão sobre o papel do grandes veículos de comunicação na lógica de acumulação do capital nas intervenções urbanas?
Harvey: Claramente, o controle da mídia é uma ameaça para a democracia popular. A questão é como se faz uma cobertura e o que é coberto. Os jornalistas que querem cobrir os acontecimentos de uma forma mais real têm vivido tempos difíceis. É uma luta pela liberdade de expressão. O caminho passa pela mídia alternativa, e a tecnologia, com a internet, abre possibilidades. O problema é que a mídia alternativa pode ser absorvida e disciplinada pelo mercado. É uma disputa que está sendo travada.  Mas é importante lembrar que vivemos sob monopólios dos meios de comunicação no mundo. A desinformação pode ser espalhada tão facilmente como a informação. E há monopólio inclusive nas mídias sociais. Ainda há muitas perguntas a serem respondidas sobre o papel das mídias sociais e sua diferença em relação às mídias convencionais.
Canal Ibase: As obras de urbanização nas favelas do Rio têm como característica a falta de diálogo com as populações e a descontinuidade dessas intervenções. Ocorreu com um projeto chamado Favela Bairro e agora se repete com um Programa de Aceleração do Crescimento. Nota-se o desinteresse do poder público de oferecer os mesmos serviços da cidade sem que haja gentrificação, embora as grandes construtoras estejam sempre presentes nessas obras. Para não legitimar a permanência dos moradores de favelas, as obras são interrompidas sempre. Qual a avaliação do senhor sobre isso?
Harvey: Se há populações de baixa renda em terras de alto valor, uma das estratégias é dar títulos de propriedade aos moradores dessas áreas, sob o argumento da regularização fundiária e da garantia da moradia. Não sei como isso ocorre no Brasil, mas um dos projetos em favelas, periferias e outras áreas pobres tem sido essa concessão de títulos de propriedades. Porque propriedade o capital pode comprar. Assim começa um processo de reocupação dessas áreas e sua consequente gentrificação. Por outro lado, uma forma de manter os preços baixos em determinadas comunidades é ter projetos incompletos. Então, o estado oferece intervenções, mas não as termina. E, desse jeito, os moradores vendem a terra a um preço baixo e saem do local. Quando a oferta chega, a infraestrutura ainda não está lá. Essa estratégica é típica nos Estados Unidos, onde se compram propriedades e as levam à decadência forçadamente. Desse jeito, desvalorizam um bairro inteiro e, num período de dez anos, é possível reocupá-lo comprando propriedades no entorno. Como o estado está envolvido nisso? Depende de lugar para lugar. Às vezes, o estado é apenas incompetente e não sabe o que está fazendo. Nesse caso, o estado pode começar uma obra e simplesmente parar no meio. Não necessariamente é uma estratégia deliberada. Mas em alguns casos é. E responde aos interesses privados. Nesses casos, há de fato uma estratégia quando uma empresa quer atuar em determinado lugar. E se decide começar uma obra já sabendo que não vai terminá-la. Ao não se terminarem projetos de infraestrutura, abre-se caminho para a chegada das empresas privadas.
Canal Ibase: No Brasil, o estado tem feito alianças com transnacionais, que têm usado e abusado do territórios brasileiro, nas zonas urbanas e rurais. Um dos setores onde isso é mais grave é a mineração. sobretudo no que diz respeito à mineração. Como a sociedade civil pode reagir a isso?
Harvey: O principal jeito de reagir é por meio de protestos. Eu fico abismado que países como o Brasil ainda abram mão de seus recursos naturais para multinacionais. E há outras formas de exploração, como é o caso das plantações de soja. Empresas como a norte-americana Monsanto (líder mundial de venda de sementes transgênicas e agrotóxico) e outras líderes do agronegócio tomam conta de territórios. A terra no Brasil vem sendo constantemente degradada por esse processo. E o ciclo é maior. É preciso lembrar que o principal mercado do agronegócio brasileiro é a China. De um lado, são os Estados Unidos vendendo a semente e o agrotóxico e, de outro, a China comprando. Um problema que se agrava é o controle chinês de terras na América Latina.
Canal Ibase: O geógrafo brasileiro Milton Santos tem uma frase que diz: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem enxergar o que os separa e não o que os une”. O senhor tem falado sobre a divisão da esquerda no mundo, da fragmentação dos movimentos sociais. Para a criação de um movimento anticapitalista, quais são os elementos invisíveis que perpassam todos os movimentos? O que liga a preservação do meio ambiente, a luta das mulheres por autonomia e o direito à cidade, por exemplo?
Harvey: Eu conheço Milton Santos, especialmente o dos anos 1970. Depois disso, ele se tornou muito pró-franceses. E ele não gostava de norte-americanos (risos; Harvey leciona na Universidade da Cidade de Nova York). Se eu tivesse a resposta para essa pergunta, poderíamos ter começado a revolução. Mas não tenho uma boa resposta.  É importante ter alianças que cruzem movimentos ambientalistas, o feminismo, assim como juntar organizações que trabalham por questões como a da moradia ou questões étnicas. Mas às vezes divergências tolas quebram essas alianças. Na minha opinião, precisamos definir o que é anticapitalismo. Não há razão para ser anticapitalista, se você acha que o capitalismo está fazendo um bom trabalho. Mas, se você não acha…Uma das coisas que eu tenho discutido com amigos da esquerda é esse conceito de anticapitalismo. Há opiniões que afirmam que o capitalismo fez um trabalho melhor que o comunismo e o socialismo. No entanto, o que está acontecendo agora é um processo violento. Se queremos mudar, temos muito trabalho a fazer. Não há muita gente na mídia interessada no que nós fazemos. Não somos um grupo muito poderoso, nem temos popularidade. É importante, entretanto, fazer esse grupo crescer, explicando às pessoas  por que é importante ser anticapitalista.
(Na palestra ministrada logo em seguida à entrevista ao Canal Ibase, Harvey complementou esse raciocínio: “Estamos em um mundo em que o neoliberalismo está ficando enraizado. Se a pessoa vai mal, a culpa é dela, e não do sistema. Ah!, e só para lembrar: é também você o responsável por pagar sua educação. Eu sempre estudei em instituições públicas até o doutorado. Hoje em dia, isso não é possível nem na Inglaterra nem nos Estados Unidos. O movimento anticapitalista poderia visar a algumas vitórias, como tornar novamente públicos o transporte, a saúde e a educação. O que estou tentando dizer é que, se você é pobre ou tem dificuldades de acesso a serviços, você é um produto do sistema; a culpa não é sua. E só há como mudar isso mudando o sistema. Em que sociedade você quer viver? Na sociedade em que a educação é com base no valor de uso ou no valor de troca?”, disse o geógrafo, fazendo a oposição por meio desses dois conceitos marxistas)
Canal Ibase: Movimentos sociais já contabilizam 100 mil pessoas removidas de suas casas apenas no Rio de Janeiro, para realização de obras em função dos megaeventos. Que forças do capitalismo levam, mesmo após os protestos que ocorreram no país inteiro, à manutenção desta alteração brutal no território?
Harvey: Como falamos anteriormente, o capitalismo depende de uma dinâmica maior. Mas precisamos redefinir coisas. Moradia não pode ser vista como commodity. A questão central é descobrir se você quer uma cidade para as pessoas ou para o lucro. Para construir uma cidade diferente, é preciso ser anticapitalista. Não há outra forma.

Julian Assange com Cuba




Assange demonstra solidariedade aos Heróis de Cuba presos nos EUA

O fundador do Wikileaks, Julian Assange, fez uma videoconferência com jovens blogueiros cubanos na quinta-feira (26/09/2013) e apareceu na tela com uma fita amarela no peito, demostrando solidariedade com os Heróis de Cuba, que estão presos nos EUA há 15 anos.
“Minha solidariedade aos Cinco”, disse Assange sobre o caso de Gerardo Hernández, Antonio Guerrero, Ramón Labañino, Fernando e René González, que foram acusados de conspiração e espionagem quando, na verdade, combatiam os atos terroristas das organizações anticastristas da Flórida. Eles foram presos em 1998 e apenas René está em liberdade após cumprir sua pena integralmente nos Estados Unidos.
Durante uma oficina sobre ciberjornalismo transmitida pelo Instituto Internacional de Jornalismo José Martí de Havana, o fundador da organização responsável pelo maior vazamento de documentos sigilosos da história dos EUA afirmou que o Wikileaks, assim como Cuba, também vive um bloqueio do país imperialista.
"Este momento que estamos vivendo juntos reflete algo que está passando no mundo, porque permite romper um bloqueio imoral como o que está sofrendo Cuba e isso é algo que o Wikileaks tenta superar, trazendo um novo tipo de solidariedade e de conjunção entre as pessoas que estão lutando pela mesma causa", expressou Assange.
“A razão deste bloqueio acontece porque são contra que Cuba tenha sua própria determinação. O desejo de bloquear o Wikileaks vem do desejo que não se fale com liberdade do que passa nos EUA", comparou.
Ele disse aos jovens cubanos que  vivemos em um estado midiático e as decisões que tomamos se baseiam naquilo que conhecemos. Sobre isso, Assange citou Noam Chomsky que disse "que os meios são como o bastão que qualquer ditador pode carregar".
Ao mesmo tempo em que o fundador do Wikileaks assegurou que a internet é um espaço que lhe permitiu romper o bloqueio norte-americano e dizer a todos a verdade, ele ressaltou que as poucas corporações de grande porte manipulam também esses espaços e resistem em dizer a verdade.
Fita amarela
Partiu de René Gonzáles a iniciativa da jornada de fitas amarelas em prol de seus companheiros de luta, que permanecem presos nos EUA. O símbolo da manifestação popular que faz parte da Jornada Internacional de Luta pela Libertação dos Cinco é uma velha marca norte-americana que indica a espera por alguém que está longe.
O emblema da fita amarela ficou conhecido na canção popular "Tie a Yellow Ribbon Around the Old Oak Tree" (amarre uma fita amarela ao redor da velha árvore de carvalho). A música conta a história de um preso que está para sair da cadeia e que a única coisa que pede à sua prometida é que coloque uma fita amarela na árvore, se ainda o amar. Quando chega, o homem se depara com cem fitas amarradas em um carvalho.
Gonzáles dirigiu um videoclipe com os músicos cubanos Silvio Rodríguez e Amaury Pérez, interpretando a música dos anos 1970. Segundo ele, trata-se de “uma mensagem do povo cubano ao povo norte-americano, através de um símbolo de carinho que eles consigam compreender em seu idioma”.

Esquerda no Poder

O primeiro é imaginar que PT e PCdoB são de esquerda. Caso consideremos de esquerda, as posições anticapitalistas, concluiremos que os citados partidos nada têm de esquerda. 
Se por ventura, houve no PT, um sentimento anticapitalista, com o andar da carruagem, prevaleceu à adesão desse partido a condição de força de sustentação da ordem socioeconômica vigente. Isso ficou claro com a "Carta ao Povo Brasileiro", documento em que o PT se propunha a garantir os interesses maiores do sistema. 
Empenharam-se em mostrar que o "leão era mansinho e desdentado". Procuraram garantir que as linhas gerais do Plano Real seriam mantidas. Não bastassem essas garantias, comprometiam-se em nomear para o Banco Central, alguém da confiança do grande capital. 
As promessas foram cumpridas, e o PT se prestou a promover um trabalho de engessamento do movimento popular. Ao lado da paralisia dos movimentos populares e sindicais, processou-se um trabalho de construção de um imenso colégio eleitoral, base de sustentação política para o petismo, através do Bolsa Família. 
Esse conjunto de medidas assegurava à burguesia, a "paz social" para que fossem auferidos grandes lucros, sem maiores estremecimentos. Em troca de tantos serviços prestados, o PT passou a merecer os mimos dos afortunados, especialmente dos empreiteiros, que nunca se negaram a regar, com gordas doações, os caixas de campanha. 
Quanto ao PCdoB que, mesmo equivocado, era um partido de teor ideológico, transformou-se em uma agremiação fisiológica e até vem contribuindo para uma nova "formulação política", qual seja, a do "caminho para o socialismo, através do esporte". A combatividade e os mártires desse partido, ocorridos outrora, não podem servir de salvo-conduto para a sua vergonhosa capitulação. 
Esquerda não são, nem PT, nem PCdoB! Por sua vez, essas organizações chegaram, apenas, ao governo. É bom salientar, porém, que há uma diferença abismal entre governo e poder. Governos vão e vêm, têm um caráter episódico, enquanto isso, o poder tem caráter permanente. O poder é o Estado, e mudanças de governo não implicam na desconstrução do Estado. Ele permanece pronto para defender os interesses do capitalismo. Esquerda no poder é um disparate, próprio de pessoas de má fé ou politicamente desinformadas. 

Wikileaks desmascarou a Globo

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Wikileaks tira máscara da mídia brasileira e comprova: estão a serviço dos EUA
Aconteceu o que já era de conhecimento dos menos desavisados. A grande imprensa brasileira foi finalmente desnudada, com tudo comprovado em documentos oficiais e sigilosos. Quem ainda tinha motivos para outorgar credibilidade à estes veículos e seus jornalistas, não tem mais. Documentos vazados pela organização WikiLeaks trazem à tona detalhes e provas da estreita relação do USA com o monopólio dos meios de comunicação no Brasil semicolonial.
Um despacho diplomático de 2005, por exemplo, assinado pelo então cônsul de São Paulo, Patrick Dennis Duddy, narra o encontro em Porto Alegre do então embaixador John Danilovich com representantes do grupo RBS, descrito como “o maior grupo regional de comunicação da América Latina“, ligado às organizações Globo.
O encontro é descrito como “um almoço ‘off the record’ [cujo teor da conversa não pode ser divulgado], e uma nota complementar do despacho diz: “Nós temos tradicionalmente tido acesso e relações excelentes com o grupo”.
Outro despacho diplomático datado de 2005 descreve um encontro entre Danilovich e Abraham Goldstein, líder judeu de São Paulo, no qual a conversa girou em torno de uma campanha de imprensa pró-sionista no monopólio da imprensa no Brasil que antecedesse a Cúpula América do Sul-Países Árabes daquele ano, no que o jornalão O Estado de S.Paulo se prontificou a ajudar, prometendo uma cobertura “positiva” para Israel.
Os documentos revelados pelo WikiLeaks mostram ainda que nomes proeminentes do monopólio da imprensa são sistematicamente convocados por diplomatas ianques para lhes passar informações sobre a política partidária e o cenário econômico da semicolônia ou para ouvir recomendações.
Um deles é o jornalista William Waack, apresentador de telejornais e de programas de entrevistas das Organizações Globo. Os despachos diplomáticos enviados a Washington pelas representações consulares ianques no Brasil citam três encontros de Waack com emissários da administração do USA. O primeiro deles foi em abril de 2008 (junto com outros jornalistas) com o almirante Philip Cullom, que estava no Brasil para acompanhar exercícios conjuntos entre as marinhas do USA, do Brasil e da Argentina.
O segundo encontro aconteceu em 2009, quando Waack foi chamado para dar informações sobre as conformações das facções partidárias visando o processo eleitoral de 2010. O terceiro foi em 2010, com o atual embaixador ianque, Thomas Shannon, quando o jornalista novamente abasteceu os ianques com informações detalhadas sobre os então candidatos a gerente da semicolônia Brasil.
Outro nome proeminente muito requisitado pelos ianques é do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, d’A Folha de S.Paulo. Os documentos revelados pelo WikiLeaks dão conta de quatro participações do jornalista (ou “ex-jornalista e consultor político”, como é descrito) em reuniões de brasileiros com representantes da administração ianque: um membro do Departamento de Estado, um senador, o cônsul-geral no Brasil e um secretário para assuntos do hemisfério ocidental. Na pauta, o repasse de informações sobre os partidos eleitoreiros no Brasil e sobre a exploração de petróleo na camada pré-sal.
Fernando Rodrigues, repórter especial de política da Folha de S.Paulo, chegou a dar explicações aos ianques sobre o funcionamento do Tribunal de Contas da União.
Outro assunto que veio à tona com documentos revelados pelo WikiLeaks são os interesses do imperialismo ianque no estado brasileiro do Piauí.
Um documento datado de 2 de fevereiro de 2010 mostra que representantes do USA participaram de uma conferência organizada pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT), na capital Teresina, a fim de requisitar a implementação de obras de infra-estrutura que poderiam favorecer a exploração pelos monopólios ianques das imensas riquezas em matérias-primas do segundo estado mais pobre do Nordeste.
A representante do WikiLeaks no Brasil, a jornalista Natália Viana, adiantou que a organização divulgará em breve milhares de documentos inéditos da diplomacia ianque sobre o Brasil produzidos durante o gerenciamento Lula, incluindo alguns que desnudam a estreita relação do USA com o treinamento do aparato repressivo do velho Estado brasileiro. 

Como nos ensinam a “estudar”

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De acordo com o dicionário Michaelis UOL, a palavra educação se define da seguinte forma:
educação
e.du.ca.ção
sf (lat educatione) 1 Ato ou efeito de educar. 2 Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino. 3 Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação musical, profissional etc. 4 Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo. 5 Civilidade. 6 Delicadeza. 7Cortesia. 8 Arte de ensinar e adestrar os animais domésticos para os serviços que deles se exigem. 9Arte de cultivar as plantas para se auferirem delas bons resultados. E. física: a que consiste em for­mar hábitos e atitudes que promovam o desen­volvimento harmonioso do corpo humano, mediante instrução sobre higiene corporal e mental e mediante vários e sistemáticos exercícios, esportes e jogos.
O conceito aqui considerado é o abrangido nos itens de 1 a 4.
Pode-se dizer que, atualmente, a educação brasileira se baseia em um objetivo. Desde pequenos os alunos são estimulados a escolher uma área de atuação com o intuito de se decidirem profissionalmente no futuro. Este objetivo, então, tem a ver com a profissão e a função social que os jovens terão quando forem adultos. Não vou entrar no mérito de que hoje se estuda para ter um bom emprego, pois esse tema é amplo e pode ser contemplado num artigo próprio. O fato é que este objetivo tem como pivô uma prova chamada vestibular.
O vestibular é o ápice da formação básica (ensino fundamental e ensino médio). Tudo o que é transmitido aos alunos gira em torno desta prova. Todas as séries preparam gradativamente os alunos para estarem prontos para uma prova. Além disso, o sistema ainda incita repetidas vezes que esta prova é a que decidirá todo o resto da vida deles, que todo e qualquer caminho que o aluno resolva trilhar quando sair da escola depende dessa prova. Uma crueldade, diga-se de passagem. Nos vendem um discurso onde os que passam na prova são os vencedores (e os que não passam, são o quê?) e não medem as consequências dessa repetição.
Uma pessoa que entra na escola com três anos de idade e se forma no ensino médio com dezessete anos terá passado quinze anos de sua existência se “aprontando” para uma única prova, para uma única etapa, para uma única fase. É algo tão limitado que chega a ser inacreditável. É difícil entender o porquê desse sistema persistir, o porquê de quase ninguém se sentir lesado por conta dele.
As disciplinas hoje ministradas carregam em si um número desmedido de conteúdos. Muitos dos temas abordados nas disciplinas são dispensáveis e inúteis. É muito comum ouvir a seguinte colocação dos alunos: “Mas eu nunca vou usar isso na minha vida”. E é um fato. Muito do que é repassado em sala de aula não se usa fora dela. Para exemplificar, no ensino médio, um aluno terá que estudar geometria analítica em Matemática. Este é um conhecimento tão específico que interessa apenas ao aluno que for se especializar na área. Sem contar que é um conhecimento que não deveria estar na formação básica, deveria ser exclusivamente da formação superior. Um aluno que não pretende continuar seus estudos nessa área não precisa se sujeitar a esse conteúdo, pois é desnecessário.
Devido à sobrecarga de conteúdos os alunos são obrigados a decorá-los. Os alunos memorizam o que é de interesse para o momento, seja um trabalho ou uma prova específica, e depois apagam os dados de seus cérebros. É assim que funciona. É assim que o vestibular funciona. Os estabelecimentos de ensino criam métodos e mais métodos de memorização e vendem isso como se fosse a coisa mais sensata a se oferecer. É uma tática adotada principalmente no ensino médio e nos cursos pré-vestibular. Os alunos decoram músicas com palavras-chave, decoram fórmulas com palavras que possuem as iniciais das fórmulas e são levados a acreditar que isso é aprendizado, que isso é conhecimento. Não é. O vídeo abaixo exemplifica como os alunos são encorajados a decorar, não a entender:
É triste saber que a maioria das pessoas, tanto alunos, quanto seus pais e seus professores aplaudem esse tipo de aula. É uma aula cômica, não muito estressante, correto. Mas é uma aula que não acrescenta absolutamente nada. É uma agressão à capacidade intelectual dos alunos.
O curioso dessa questão das disciplinas é que, mesmo elas contendo tanta informação, ainda faltam conhecimentos a serem incluídos, conhecimentos importantíssimos e essenciais. As disciplinas já existentes devem passar por uma grande reformulação e novas disciplinas devem ser acrescentadas. O ideal é que a escola prepare os alunos para situações de vivências presentes e futuras, não para uma prova.
O que acredito que deva ser acrescentado na grade escolar: legislação, economia, política e trânsito. Todo cidadão deve ter noção do que está exposto na Constituição Federal, nos Códigos, nos Estatutos (…). Assim como deve ter entendimento, mesmo que básico, do que está envolvido com a política e a economia, como funcionam, no que se baseiam; afinal, o sistema político e econômico vigente é o sistema capitalista. E algo tão complexo quanto o trânsito não deveria se resumir a alguns dias de aulas teóricas obrigatórias para a aquisição do documento de habilitação. As crianças não podem se tornar adultos sem que saibam o mínimo destes assuntos. São assuntos que fazem parte da vida de todos, desde o nascimento até a morte. Não são temas que dependem da futura área de atuação profissional do aluno, são temas gerais. É um erro não tratá-los com a devida relevância. São assuntos que merecem destaque em qualquer programação escolar.
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Na lição de Paulo Freire: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Crianças precisam crescer com esse discernimento.
Quanto às disciplinas existentes, o apropriado seria se desfazer da maioria dos conteúdos descartáveis e incluir conteúdos úteis. Por exemplo, estudar nutrição e alimentação em Biologia é bastante relevante. Abordar temas que envolvem tecnologia e desenvolvimento nas aulas de Física e Química também é apropriado. É preciso despertar a curiosidade dos alunos. Não há estímulo suficiente em uma aula puramente teórica, nos moldes do quadro, giz e cópia no caderno. Disciplinas que envolvem as ciências biológicas e as ciências da natureza devem ser vistas tanto pelo viés teórico quanto pelo viés prático. Existe uma diferença enorme entre ler e ouvir sobre o movimento de revolução da Lua em torno da Terra e observar, noite após noite, com um telescópio, esse movimento. Tirar as próprias conclusões e anotar as próprias observações sobre o fenômeno é mais estimulante, é mais legal. A escola tem que proporcionar isso aos alunos.
Outras duas disciplinas, a educação física e a educação artística, devem ser mais valorizadas. Preza-se muito as disciplinas que não envolvem as capacidades físicas e artísticas. Os alunos que apresentam habilidades para os esportes, para a música, para a dança, para o teatro ou para pintura não são estimulados a aperfeiçoarem-nas. O sistema supervaloriza certas habilidades e menospreza outras. Como se existissem conhecimentos superiores a outros. Como se um aluno muito habilidoso em dança fosse inferior a um aluno muito habilidoso em Física, por exemplo. Observando-se os maiores gênios e as maiores personalidades ao longo da história, vê-se que eles estão espalhados por todas as áreas do conhecimento, não em áreas específicas.
O psicólogo Howard Gardner sugere a existência de inteligências múltiplas, rompendo com a ideia de que a inteligência é única e se apresenta igual a todos os indivíduos. As inteligências que se baseiam no trabalho de Gardner e hoje consideradas são: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalista. Na imagem abaixo há uma visão geral sobre cada uma delas. Dentre as várias formas que o aluno pode demonstrar sua inteligência, a escola não deveria considerar apenas uma delas como a merecedora de desenvolvimento e aprimoramento. É visível que a escola prioriza a inteligência lógico-matemática em primeiro plano e a linguística em segundo. As demais inteligências não encontram muito espaço no ambiente escolar. Isso afeta consideravelmente os alunos que, para se adequarem ao sistema, renunciam as suas personalidades, os seus dons. É uma gigantesca injustiça o que ocorre com esses alunos. Não pode ser assim. Não deve ser assim.
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Não adianta dizer que um país precisa de educação para crescer. Não adianta dizer que a escola pública precisa melhorar. O Brasil tem uma educação vigente. O que deve ser mudado é o sistema. Tanto a escola pública quanto a escola particular agem de acordo com esse sistema. Este sim precisa ser reformado, reformulado. Sempre que voltava do colégio passava por um muro com a seguinte pichação: “Só a educação liberta esta nação”. Eu concordava com aquilo. Hoje não concordo mais. A educação como está não nos libertará nunca. De nada. Enquanto não ocorrer uma mudança, nós, alunos, não seremos vistos como cidadãos, como pessoas, continuaremos a ser vistos apenas como mais um “tijolo no muro”. A educação virou comércio, virou negócio. Quem lucra não é o aluno, são os empresários do ramo e o Estado que estima robôs, não seres pensantes. E isso é doloroso. É doloroso tomar consciência do que fazem conosco.
O pior de tudo é sair da escola, entrar na faculdade e perceber que nada mudou. “E eu achando que tinha me libertado… Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer: reinstalar o sistema” (Admirável chip novo – Pitty). Antes era vestibular e Enem, agora é OAB, Enade e concursos (sou estudante de Direito). A impressão que fica é a de que ninguém se preocupa em me formar uma profissional competente e preparada para enfrentar os reais desafios futuros. A seguinte citação de Cesar Pasold traduz o que digo:
Percebe-se que se está a conferir a capacidade do acadêmico no armazenamento literal do texto codificado. Não se busca aferir, por exemplo, a capacidade de raciocínio segundo os princípios constitucionais. Relega-se a interpretação, pois esta pode ensejar que o despachante forense tomeatitudes conscientes, críticas, que não são bem quistos dentro do sistema vigente. Evita-se a mudança de paradigmas a todo custo. A capacidade ética do futuro profissional perde razão para as potencialidades de sua memorização. Por isso, não rara a constatação de que muitos acadêmicos, com perfil ético e profissional de verdadeiros juristas, não consigam lograr êxito nos referidos Exames, posto que estão voltados a um novo paradigma jurídico”.
Esta semana tive a oportunidade, depois de uma prova oral, de desabafar tudo isso para um professor. Ele disse que não tirava minha razão, mas que ele, sendo também professor de cursinho, via que a tendência era só piorar. Agora, me diz se não é para ficar desanimada?
Tudo que querem é formar um nome na lista de aprovados. Só. Alunos não passam de números de inscrição nas milhões de provas da vida. Às vezes, a contragosto, acabo concordando com aquela frase que diz que a ignorância é uma virtude. Infelizmente.
E, para não ser injusta com aqueles que destoaram das regras impostas pela educação e compartilharam mais do que macetes comigo, fica o meu agradecimento. Obrigada aos professores que viram em mim uma pessoa, não mera ferramenta de trabalho. Valeu a pena tê-los conhecido. Se você é professor e está lendo o artigo, o pedido que fica é: preze pelos seus alunos, você tem uma responsabilidade enorme em mãos, você tem em seu convívio pessoas valiosas que esperam ser tratadas com respeito. Não somos máquinas. Nós merecemos mais consideração.