CONVERSAS COM MR. DOPS

Aos 80 anos, José Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o “doutor Paulo”, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, “o melhor departamento de polícia da América Latina”, não se cansa de repetir.“O DOPS era um órgão de inteligência policial, fazíamos o levantamento de todo e qualquer cidadão que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolução”, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.
Embora esteja aposentado há 27 anos, não há nada de senil em sua atitude ou aparência. Os olhos astutos de policial ainda dispensam os óculos para perscrutar o rosto do interlocutor, endurecendo quando o delegado acha que é hora de encerrar o assunto.
Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas não de responder a perguntas que lancem luz sobre os crimes cometidos pelo aparelho policial-militar da ditadura do qual participou entre 1964 e 1983: prisões ilegais, sequestros, torturas, lesões corporais, estupros e homicídios que, segundo estimativas da Procuradoria da República, vitimaram cerca de 30 mil cidadãos. Destes, 376 foram mortos, incluindo mais de 200 que continuam até hoje desaparecidos.

Os arquivos do DOPS se tornaram públicos em 1992, mas muitos documentos foram retirados pelos policiais quando estavam sob a guarda do então diretor da Polícia Federal e ex-diretor geral do DOPS, Romeu Tuma. Entre os remanescentes estão os laudos periciais falsos, produzidos no próprio DOPS, que transformavam homicídios cometidos pelos agentes do Estado em suicídios, atropelamentos, fugas. No caso dos desaparecidos, os corpos eram enterrados sob nomes falsos em valas de indigentes em cemitérios de periferia.
Globo, Folha, Bradesco – e Niles Bond
Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.
O “doutor Paulo” sorri enlevado ao lembrar dos momentos passados com o marechal Costa e Silva (o presidente que assinou o AI-5 em dezembro de 1968, suspendendo as garantias constitucionais da população). “O Costa e Silva, quando vinha a São Paulo, dizia: ‘Eu quero o doutor Paulo Bonchristiano’”, e imita a voz do marechal – ele adora representar os casos que conta.
“Eu fazia a escolta dele e ele me chamava para tomar um suco de laranja ou comer um sanduíche misto na padaria Miami, na rua Tutóia, vizinha ao quartel do II Exército. Todo mundo querendo saber onde estava o presidente da República, e eu ali”, delicia-se.
Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops”.
Orgulha-se também de outro apelido – “Paulão, Cacete e Bala” – que diz ter saído da boca dos “tiras” quando “caçava bandidos” na RUDI (Rotas Unificadas da Delegacia de Investigação), no início da carreira, com um “tira valente” chamado Sérgio Fleury. Anos depois, os dois se reencontrariam na Rádio Patrulha, de onde saiu a turma do Esquadrão da Morte, levada para o DOPS em 1969, quando Fleury entrou no órgão.
“Polícia é polícia, bandido é bandido”, diz Bonchristiano. “Para vocês de fora é diferente, mas para nós, acabar com marginal é uma coisa positiva. O meu colega Fleury merecia um busto em praça pública”, afirma, sem corar.
O delegado Sérgio Fleury e sua turma de investigadores se celebrizaram por caçar, torturar e matar presos políticos no DOPS, enquanto continuavam a exterminar suspeitos de crimes comuns no Esquadrão da Morte.
Conversas gravadas
No decorrer de nove tardes passadas, entre junho de 2011 e janeiro deste ano, em seu apartamento no Brooklin, no 13º andar de um prédio de classe média alta, aprendi a escutar com paciência os “causos” que “doutor Paulo” narra com humor feroz, até extrair informações relevantes. Repetidas vezes eu as confrontava com livros e documentos e voltava a inquiri-lo; a proposta era que ele se responsabilizasse pelo que dizia.
De certo modo, meu embate com o “doutor Paulo” antecipava as dificuldades que serão enfrentadas pela Comissão da Verdade, a ser instalada em abril para apurar fatos e responsáveis – sem punição penal prevista – pelas violações de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, abrangendo o período da ditadura militar. O objetivo da comissão é devolver aos cidadãos brasileiros um passado que ainda não se encerrou, como provam os desaparecidos, e impedir que funcionários públicos sigam mantendo segredo sobre atos praticados a mando do Estado.
A fragilidade da lei em pontos cruciais, porém, provoca ceticismo nas organizações de direitos humanos, em especial ao permitir o sigilo de depoimentos – ferindo o direito à transparência pública –, e ao não prever punições aos responsáveis pelos crimes, nem mesmo medidas coercitivas para os que se recusarem a depor.
“Não vou depor. Acho bobagem”, diz Bonchristiano. “Nunca pratiquei irregularidades, mas não sou dedo duro e não vejo utilidade nessa comissão”, justifica o funcionário público, aposentado aos 53 anos, e que recebe hoje 11 mil reais por mês de pensão.
Minhas conversas com Mr. DOPS renderam 15 horas de gravação que revelam a mentalidade e as conexões políticas dos policiais que atuaram na repressão do governo militar. E provam que os detentores das informações estão por aí – embora continuem ocultando as circunstâncias exatas em que os crimes foram cometidos e os mandantes de cada um deles.
Torturadores e repressores
O nome de Bonchristiano – que significa “bom cristão” e veio de Salerno, Itália – não consta das principais listas de torturadores compiladas por organizações de direitos humanos.
O Projeto Brasil Nunca Mais, um extenso levantamento realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 com base nos IPMs (inquéritos policiais militares), é até hoje a principal referência, embora muitas vezes liste apenas os “nomes de guerra” dos torturadores, já que os reais eram desconhecidos das vítimas.
No tomo II, volume 3, “Os funcionários”, Paulo Bonchristiano é citado oito vezes em operações de repressão. Mas seu nome também não consta da chamada Lista de Prestes, de 1978, liberada recentemente pela viúva do líder comunista, que traz vários nomes completos e os cargos de 233 torturadores denunciados por presos políticos – entre eles 58 policiais do DOPS de São Paulo, 21 deles delegados.
As lacunas dessa história, porém, não permitem descartar a revelação de novos nomes. Entre 1968 e 1976 – o período mais duro da ditadura –, as torturas faziam parte do cotidiano de todos os policiais e militares envolvidos na repressão. O DOPS era “manejado pelos militares como um órgão federal”, como observa o jornalista Percival de Souza no livro “Autópsia do Medo”, do qual o Paulo Bonchristiano participa como fonte e personagem, qualificado como “um dos delegados mais conhecidos do DOPS”.
Nas entrevistas à Pública, o ex-delegado resistiu duas tardes inteiras antes de admitir que se torturava e matava no “melhor departamento de polícia da América Latina” – o que hoje qualquer cidadão pode constatar através dos depoimentos reunidos no “Memorial da Resistência”, museu que desde 2002 ocupa as antigas instalações do DOPS, no centro de São Paulo.
Nem mesmo o fato de Sérgio Fleury ter se celebrizado como torturador impediu Bonchristiano de tentar isentar o órgão: “O Fleury era do DOPS e não era do DOPS, era o homem de ligação do DOPS com os militares, era delegado das Forças Armadas, do Alto Comando. Não obedecia a ninguém, interrogava presos no DOPS, no DOI-CODI, em delegacias, sítios, no país inteiro. Todo o segundo andar do DOPS era dele, tinha que telefonar antes: ‘Fleury eu vou descer pra falar com você’. Se não, a gente não entrava. Ele tinha uma porta lá, todo misterioso”.
Bonchristiano ainda se lembra, e muito bem, das antigas desavenças com o ex-colega.
“O Fleury estava em todas, se metia em tudo, perdi muitos ‘tiras’ para ele porque lá eles ganhavam mais, tinha um ‘por fora’”, contou na segunda entrevista. “Uma vez prendi um cara em um aparelho no Tremembé, e quando estava chegando no DOPS, o Fleury pediu o preso emprestado, não lembro o nome dele. Depois de dois dias sem notícias do preso, fui perguntar para o Fleury, e ele me pediu desculpas, tinha matado o cara que eu nem ouvi”, relata, como se fosse um contratempo na repartição. “Chegou uma hora que só ele que dominava. Só se falava dele”.
“Graças a Deus só se fala no Fleury”, reagiu dona Vera, a elegante senhora com quem o ex-delegado é casado há 53 anos, que entrava na sala trazendo refrigerantes. E emendou: “Zé Paulo, essa entrevista já não está durando demais?”, frase que ela repetiria muitas vezes depois.
Foi na terceira entrevista – quando já acumulávamos seis horas de gravação – que o “doutor Paulo”, sem dona Vera na sala, finalmente confirmou que “sabia de tudo” o que acontecia no DOPS. E se “justificou”:  “Eu não podia fazer nada, isso era com o pessoal de lá de cima. Eu era delegado de segunda classe, respondia apenas ao diretor do DOPS, o resto era com eles”.
Bonchristiano tornou-se delegado de 2ª classe em 1969 e foi promovido “por merecimento” a delegado de 1ª classe em 1971.
Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante)  e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.
Bonchristiano disse então que “alguns da diretoria do DOPS” participaram da montagem da OBAN – “os militares não entendiam nada de polícia, depois aprenderam” – e que cederam três delegados no início das operações, todos incluídos entre os torturadores na Lista de Prestes: Otávio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e à TFP (Tradição, Família e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resistência armada; Renato d’Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.
Levaram também os métodos da polícia, incluindo o pau-de-arara – na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos até que a dor insuportável os fizesse “confessar”.
“O pau-de-arara não é, assim, uma tortura, vai tensionando os músculos, se o cara falar logo não fica nem marca, mas se o cara for macho e segurar…”, explicou-me ele certa vez. Diante de minha expressão escandalizada, concedeu: “choques, sim, dependendo”. E completou: “Naquela época foi diferente, o governo estava tentando melhorar o país. Aí nós tivemos que fazer essa luta. Nunca considerei os comunistas bandidos, considerava ideologicamente inimigos. Tanto que eu sempre falei, não poderia haver mortes”.
Bonchristiano disse que frequentava a OBAN e o DOI-CODI para “buscar presos, não para levar”, buscando distanciar-se das mal afamadas equipes de captura da OBAN, que realizavam prisões ilegais. Alguns eram soltos sem que sua passagem nos órgãos policiais fosse sequer registrada; outros eram enviados para os cárceres do DOPS, onde assinavam as “confissões” e tinham a “prisão preventiva” decretada.
“Maçã Dourada”, os paramilitares e o DOPS 
Em seus primeiros anos no DOPS, Bonchristiano se especializou em infiltrações em movimentos sindicais, mas a partir de 1968 os estudantes se tornaram prioridade. “Quem faz revolução é estudante, operário faz revolução na Rússia”, costumava dizer.
Uma das operações das quais mais se orgulha, que o levou às páginas de revistas e jornais, foi o desmantelamento do Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, em 12 de outubro de 1968, comandado por ele. “Prendi 1263 estudantes sem disparar um tiro”, diz – embora os policiais do DOPS e da Força Pública de Sorocaba tenham comprovadamente anunciado sua chegada com rajadas de metralhadora para o ar. “Coloquei a garotada em 100 ônibus cedidos pela (viação) Cometa e levei todo mundo para o DOPS. Separei os líderes e liberei o resto para ir para casa. Não tínhamos vontade de matá-los, eram estudantes”, ironiza.
Entre os 11 líderes que Bonchristiano mandou para o Forte de Itaipu, em Santos, estão os ex-ministros Franklin Martins e José Dirceu, e o líder estudantil Luiz Travassos, já falecido.
“Eu sabia tudo o que o Dirceu fazia porque ele era metido a galã e eu coloquei uma agente nossa para seduzi-lo”, gaba-se o delegado. “Ela era muito bonita, a Maçã Dourada, e me contava todos os passos dele”, diz o delegado. A “estudante” Heloísa Helena Magalhães, uma das 40 moças contratadas pelo DOPS para esse tipo de serviço, segundo ele, chegou a ser secretária de Dirceu na UNE (na verdade, José Dirceu foi diretor da UEE).
Dias antes, havia acontecido o famoso embate entre estudantes de direita reunidos no Mackenzie e estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antonia, base de resistência contra a ditadura. Pelo lado da direita, os conflitos foram publicamente liderados por João Marcos Flaquer, fundador do CCC, organização paramilitar idealizada por Luís Antonio Gama e Silva, o jurista que redigiu o AI-5 após se afastar da reitoria da USP para assumir o Ministério da Justiça de Costa e Silva.
Flaquer não era do Mackenzie – estava no último ano de Direito na USP – e dividia o comando dos combates com Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, “tira” do DOPS, subordinado a Bonchristiano. Oficialmente, a polícia só entrou no campus no segundo dia de conflitos, depois que um tiro, atribuído a um membro do CCC, Ricardo Osni, atingiu um estudante secundarista. Mas, segundo Bonchristiano, havia outras forças por trás dos conflitos:
“Foi o João Marcos que fundou o CCC e salvou os estudantes de passarem todos para o comunismo, por isso os americanos também gostavam dele”, diz o ex-delegado. “Ele tinha uma capacidade fabulosa, era forte demais, um cara fora de série, muito meu amigo. Eu o conhecia desde o segundo ano da faculdade, ele queria ser delegado mas a família dele era muito rica e não o queria metido com polícia, então ele vinha para o DOPS comigo. Ele dirigia toda essa parte de estudantes, infiltrava gente entre os esquerdistas. Se tinha alguma coisa que interessava ao DOPS, ele fazia. Mas só com minha anuência”, gaba-se o ex-delegado, que diz participado do planejamento do conflito.
O CCC começou com cerca de 400 membros e chegou a reunir 5 mil homens – boa parte deles militares e policiais. Andavam armados, espancavam estudantes e artistas que se opunham à ditadura e seus atentados mataram pelo menos duas pessoas.
João Marcos Flaquer, Ricardo Osni, João Parisi Filho e José Parisi, “estudantes” do CCC, eram colaboradores do DOI-CODI e constam da lista de torturadores do Brasil Nunca Mais.
Os dois primeiros, bem como o mentor Gama e Silva, também participavam de encontros que reuniam policiais da CIA e do DOPS. “A especialidade da CIA era fomentar organizações paramilitares como o CCC. Acho bem possível que eles recebessem, além de apoio, dinheiro”, diz a socióloga Martha Huggins, da Tulane University, New Orleans, pesquisadora de programas de treinamento de policiais estrangeiros pela CIA.
Afinidades eletivas: o DOPS e a CIA
Bacharel de Direito pela PUC-SP, filho de uma farmacêutica e um bancário, José Paulo Bonchristiano não entrou na polícia política por acaso. Ele e a turma de amigos da faculdade – seis deles futuros delegados do DOPS – eram anticomunistas viscerais e católicos conservadores, e representavam a direita no centro acadêmico 22 de agosto.
Esse perfil agradava ao experiente delegado Benedito de Carvalho Veras, que os recrutou em 1957 quando cursavam o último ano de Direito e faziam estágio na polícia. Veras, que se tornaria secretário de segurança do governador Jânio Quadros no ano seguinte, estava à procura de quadros para modernizar a polícia, sob orientação do Programa do Ponto IV – idealizado  pelo presidente americano, Harry Truman, com o objetivo de prevenir a “infiltração comunista”. Isso se traduzia na combinação de ajuda econômica e treinamento das forças policiais dos países da região.
A intenção era “profissionalizar” a polícia brasileira – sobretudo os que lidavam com crimes políticos e sociais – para que barrassem o comunismo sob qualquer governo.
No mesmo ano em que Veras assumia a secretaria de segurança e nomeava Bonchristiano como delegado substituto de polícia, uma deputada (Conceição da Costa Neves, do PTB, que fazia oposição ao então governador Jânio Quadros) denunciava publicamente ter sido vítima de um grampo telefônico. “Foi o primeiro grampo que se tem notícia em São Paulo”, conta o ex-delegado, que conheceu de perto o autor da “inovação tecnológica”, o escrivão Armando Gomide, futuro agente do Serviço Nacional de Informações (SNI). Gomide havia aprendido o “grampo” com os instrutores do Ponto IV, que também forneceram equipamentos para melhorar a qualidade das gravações.
Em 1962, o programa passou a ser dirigido pelo OPS – Office of Public Safety – uma “célula da CIA incrustrada dentro da AID (Agency for International Development, no Brasil, mais conhecida como USAID)”, nas palavras da professora Martha Huggins.
Além de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panamá (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Polícia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando até 1975. No Brasil, o OPS ficou até 1972, quando o Congresso americano começou a investigar as denúncias de que o programa patrocinava aulas de tortura.
A IPA foi um das “escolas” nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes – logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5ª classe, o início da carreira, ele já frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusitânia, em São Paulo. “Ele estava sempre de portas abertas para nós, ficávamos lá conspirando”, ironiza.
Foi ali que Bonchristiano conheceu o policial americano Peter Costello, que veio para o Brasil em 1962 como instrutor da OPS depois de treinar 2.500 homens em técnicas de controle de distúrbios na Coréia. “Era um sujeito austero, falava português e entendia de polícia, deu curso de algemas, tiro rápido e outros para os policiais do DOPS, conta, completando: “Alguns meninos do CCC também participaram”.
Antes de 1964 os delegados do DOPS já contavam com a ajuda dos americanos para identificar os “comunistas”, muitos deles presos logo depois do golpe. “A ordem que a gente tinha desde o começo era identificar e prender todos os comunistas. Queríamos acabar com o Partido Comunista”, diz Bonchristiano.
Para contribuir com essa missão, “o Ponto IV nos contemplou com fotografias dos frequentadores (brasileiros) dos cursos de guerrilha na China”, relatou Renato d’Andrea, um dos delegados que foram da turma de Bonchristiano na PUC, ao jornalista Percival de Souza.
Na primeira operação importante que Bonchristiano realizou no DOPS, em abril de 1964, foi a vez de retribuir, entregando aos americanos as 19 cadernetas apreendidas na casa do líder comunista Luiz Carlos Prestes. As cadernetas foram xerocadas nos Estados Unidos (aqui ainda não existia o xerox) e retornaram 15 dias depois para o Brasil, servindo de base para a prisão de diversos militantes comunistas.
Só sobraram as cópias das cadernetas de Prestes, hoje nos arquivos do DOPS – os originais, segundo o “doutor” Paulo, desapareceram. Por aqui as cadernetas serviram de base a um dos maiores IPMs da primeira fase da ditadura, e foram usadas como justificativa para a prisão de diversos militantes comunistas como Carlos Marighella, que o próprio Bonchristiano foi encarregado de conduzir a São Paulo, depois que ele havia sido preso e baleado em um cinema no Rio, em 1964. Solto em 1965, Marighella foi assassinado em uma emboscada de policiais do DOPS em 1969.
“É uma bobagem danada dizer que a CIA mandava no DOPS, que nós éramos agentes da CIA, não era nada disso, nós éramos delegados do DOPS”, resmunga o doutor Paulo. “A América do Sul sempre foi o quintal dos Estados Unidos, e eles olhavam muito para nós, tinham medo do Brasil se tornar comunista. E notaram que tinha um departamento de polícia em São Paulo que trabalhava firme nisso. Porque o DOPS de São Paulo fazia todos os levantamentos que conduzissem a algum elemento do Partido Comunista em todo o Brasil, na América Latina inteira”.
Mr. Dops e Mr. Bond
“Depois que o presidente Truman criou a CIA, era a CIA que acompanhava o movimento dos subversivos”, continua. “Então trabalhávamos juntos, viajávamos juntos em muitos casos, mas nossas reuniões eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hotéis como o Jandaia e o Jaraguá, no centro de São Paulo. O Fleury também ia, o Flaquer, o Gama e Silva e até o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio, que conspirou pelo golpe e acabou sendo cassado em 1968). O Niles Bond era chefe lá deles, sujeito bacana, conhecia bem o Brasil, e gostava muito de mim. Me chamava de Mr. Dops, porque eu sempre o atendia em tudo que precisava e era ele que me mandava para Langley”, frisa mais uma vez, mostrando uma foto sua com trajes de George Washington ao lado de um colega fantasiado de soldado federalista, tirada durante uma de suas estadas em Washington (FOTO).
“Não lembro quando foi tirada porque estive oito vezes em cursos de treinamento nos Estados Unidos (entre 1963 e 1970)”, diz ele. “Fiz cursos técnicos, de polígrafo, técnicas de inteligência, infiltração. E sobre o comunismo também, eles tinham verdadeira obsessão. Saí de lá convencido de que eles, sim, são duros, fazem o que for preciso para garantir seus princípios”.
Entre 1959 e 1969, Niles W. Bond foi adido da embaixada no Rio e cônsul geral em São Paulo, segundo seu currículo na Association for Diplomatic Studies and Training, que também aponta a ligação com a CIA desde 1956, quando era assessor político da embaixada italiana.
Langley, frequentemente usado como sinônimo de CIA nos Estados Unidos, é o nome dos arredores da pequena cidade de McLean, na Virginia, onde desde o início da década de 1960 ficam os “headquarters” da agência de inteligência americana, a alguns quilômetros de Washington.
Com o tempo, descobri que quando o doutor Paulo se referia a Langley, significava que estava em treinamento em instalações na CIA, não apenas na sede, mas “em muitos outros lugares, até na Flórida”, como confirmou depois.
As informações sobre a CIA foram reveladas por doutor Paulo quando o inquiri sobre sua transferência, em 1ª de setembro de 1964, para o Ministério da Guerra, lotado no II Exército – informação que obtive checando todas as suas nomeações, transferências e promoções no Diário Oficial (seu currículo oficial omite essa significativa passagem).
Ele diz que foi transferido porque havia sido encarregado (com mais três delegados) de montar um plano de estruturação da Polícia Federal pelo general Riograndino Kruel, irmão do comandante do II Exército, Amaury Kruel (ambos também treinados nos Estados Unidos): “O Edgar Hoover (fundador do FBI) é um cara que admiro muito, e os americanos achavam muito importante montar uma polícia como essa no Brasil – o DOPS paulista já atuava como polícia federal, mas era subordinado à secretaria de segurança estadual, o que atrapalhava nossos movimentos”, explicou.
Até hoje a Polícia Federal registra seus agradecimentos à “revolução de 1964” no site oficial da entidade: “Somente em 1964, com a mudança operada no pensamento político da Nação, a idéia da criação de um Departamento Federal de Segurança Pública, com capacidade de atuação em todo o território, prosperou e veio a tornar-se realidade”.
O capitão americano e a guerrilheira
“Felizmente aqui no Brasil não fizemos como em outros países, matanças. Não houve isso. Houve só morte de quem quis enfrentar a polícia. Isso em qualquer lugar do mundo. Quando uma guerrilha deles lá, um aparelho, matou o nosso colega lá em Copacabana, o Moreira, o que nós tinhamos que fazer? Descobrir os caras e matar também”, ri. “Polícia é assim”, avalia o “doutor” Paulo.
Dulce de Souza Maia, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) sentiu na carne o peso dessa vingança, quando foi presa na madrugada do dia 25 de janeiro de 1969, enquanto dormia na casa da mãe.
Dois dias antes, vários líderes da VPR tinham sido presos e os repressores já sabiam que ela havia participado de um atentado a bomba no II Exército, que matou o sentinela Mario Kozel Filho. Também havia sido erroneamente apontada como uma das autoras do atentado que em 1968 matou o capitão do Exército americano, Charles Chandler, acusado pelos guerrilheiros de dar aulas de tortura no Brasil a serviço da CIA.
Dulce não sabe dizer se todos que a torturaram no quartel da Polícia do Exército eram militares, mas sua lembrança mais forte é a cara redonda do homem que a estuprou, depois de dar choques em sua vagina. “Eu aguentei 48 horas”, me disse, por telefone. “Depois acabei dando um endereço de um apartamento que eu conhecia porque tinho ido a uma feijoada, não era um aparelho”.
Foi então levada para o DOPS, metida em uma viatura com uma equipe de policiais dos quais não sabe o nome: “Nem lembro das caras, estava quase morta, sei que eles me levaram para a rua Fortunato e apontei o prédio que só reconheci porque tinha parado o meu carro na frente no dia da feijoada – eu não sabia que o João Leonardo, que inclusive era de outra organização (ALN), morava ali. Lembro só que o vi quando a porta abriu”, lamenta.
A versão do delegado Bonchristiano sobre o mesmo episódio omite detalhes significativos. “Nós estávamos atrás dos caras que mataram o Chandler, coitado, executado na porta da casa dele, no Sumaré. Em 36 horas, o Cara Feia, um tira excepcional que já morreu, sabia quem tinha feito. Aí, uma menina que nós prendemos, nos conta de uma reunião na Rua Fortunato, perto da Santa Casa da Misericórdia. Eu fui com a menina. Mandamos ela tocar a campainha. Peguei o professor que era o dono do apartamento, prendemos”, contou. “Voltamos para o DOPS, eu, Tiroteio, Cara Feia e a menina e deixei dois tiras, o Raul Careca e o Nicolino Caveira, para ver se acontecia mais alguma coisa. Telefone. ‘Doutor, o senhor tem que vir aqui, teve um problema’. ‘Muito problema?’ ‘Demais’, quando é demais é que houve morte. Quando cheguei lá, tinha sangue para todo lado. O Raul Careca, que era um ótimo atirador, tinha dado 18 tiros no Marquito (Marco Antonio Brás de Carvalho). Aí que eles me contaram o que tinha acontecido: esse que matou o Chandler tinha chegado e quando abriu a porta, falou assim: “Quem são vocês?” E os tiras: “Nós somos da família”. “Ah é?” E puxou a arma. Os tiras revidaram e ele morreu”.
Bonchristiano jamais mencionou que a “menina” estava quebrada pela tortura. Mas corrigiu a versão que consta do depoimento de Raul Careca em um processo movido pela família de Marquito. Ali ele dizia que foram dois os tiros disparados.
Mano nera
“O caso Chandler gerou consternação, mas, sobretudo preocupação entre o grupo de assessores policiais, pois estes poderiam tornar-se alvo também. Participaram das investigações e ajudaram a identificar as armas utilizadas, enviando o material para estudo em laboratórios de criminalística do FBI”, relata o professor Rodrigo Patto, da UFMG, que estuda a relação entre a USAID e a CIA.
Patto, porém, não sabe dizer se Chandler era de fato da CIA como acreditavam os militantes da ALN e da VPR que decidiram matá-lo. “Ele havia estado no Vietnã, e estava oficialmente em viagem de estudos no Brasil”, diz.
Em seguida ao assassinato de Chandler, um ex-instrutor americano de Bonchristiano, Peter Ellena, veio para o Brasil para acompanhar as investigações, o que melindrou o pessoal do DOPS. “Demos para ele a mano nera (símbolo da máfia), a mão negra ensaguentada”, diverte-se, contando que os policiais simularam um bilhete de ameaças dos guerrilheiros para assustar o “gringo”. “Ele ficou morrendo de medo”.
O jornalista Percival de Souza relata que o DOPS produzia relatórios confidenciais diários sobre o caso para o consulado americano, e que descobriram o fio da meada que os levaria a Marquito, “menos de um mês depois do fuzilamento”, registrando em seguida a versão que Bonchristiano continua a defender: um acidente ocorrido na BR-116 no dia 8 de novembro de 1968, na altura de Vassouras (RJ), teria matado Catarina e João Antonio Abi-Eçab que estava em um fusca.
Ao socorrer o casal, a polícia teria encontrado uma metralhadora INA calibre 35, como a que matou Chandler. O DOPS foi avisado, e Bonchristiano viajou imediatamente a Vassouras. Lá o delegado teria descoberto que o casal, militante da ALN, teria ido ao Rio de Janeiro para encontrar Marighella, e que a metralhadora era a mesma que matou Chandler. Tinha encontrado a arma do crime.
O “teatrinho”, como os policiais chamavam as versões criadas para encobrir seus crimes, foi desmontado a partir do relato de um ex-soldado do Exército ao jornalista Caco Barcellos, em 2001, em que reconheceu Catarina “como presa, torturada e morta em um sítio em São João do Meriti (município vizinho a Vassouras)” e afirmou que os órgãos de repressão, após a execução, teriam forjado o acidente.
Mais uma vez a “eficência” do DOPS veio da tortura. Bonchristiano, que insistiu até o fim na desmentida versão, diz que foi cumprimentado por Niles Bond pelo feito. “O Chandler era um dos nossos, frequentava nossas reuniões, o Bond sabia que eu ia resolver o caso”, gaba-se.
Esticadinha no chão
Em 1983, os ventos democratas extinguiram o DOPS e trouxeram um novo delegado geral, Maurício Henrique Pereira Guimarães, que despachou Bonchristiano para uma obscura seção da Secretaria de Justiça, encarregada das viúvas dos soldados mortos na II Guerra. “Preferi me aposentar, hoje não acredito mais em nada. Fiz o que o presidente queria, os militares queriam, e não ganhei nem aquelas medalhinhas que eles davam para todo mundo”, desdenha, referindo-se à Medalha do Pacificador, entregue pelos militares a torturadores famosos.
Mas o Mr. Dops não tem muito do que reclamar. Em seus primeiros oito anos de DOPS subiu da 5ª para a 1ª classe, como só acontecia aos que participavam da linha de frente da repressão. Ficou um tempo na “geladeira” quando um desafeto, o coronel Erasmo Dias, assumiu a secretaria de segurança (1974-1979). Mas conseguiu depois a promoção a delegado de classe especial e se aposentou no topo da carreira, em 1984.
A família, porém, ainda sofre com o passado do delegado. A filha, uma artista plástica, escolheu o prédio do antigo DOPS como cenário de uma performance acadêmica. No Facebook, comenta que o pai ficou “do lado dos algozes da ditadura”, enquanto uma de suas filhas – neta de Bonchristiano –  faz campanha pela Comissão da Verdade em seu perfil.
Dona Vera sente a distância dos netos e lembra com amargura do tempo em que o marido trabalhava no DOPS. Via-se sozinha dias a fio com três filhos pequenos: “Eu não podia falar com ele nem por telefone, ligava lá e me diziam ‘a senhora fica tranquila que ele está bem’”, conta. “E eu, apavorada com as ameaças que a gente recebia por telefone, meus filhos iam escoltados para a escola”, diz.
Ela traz ainda outra lembrança: “Uma vez, minha filha era pequenininha, e quando o Campão, que trabalhava para o Zé Paulo, veio buscá-la para escola, ela desatou a chorar ao ver aquele homão, parecia um índio, vestido de amarelo da cabeça aos pés”, diz.
“Era o meu motorista no DOPS, depois veio me pedir licença para trabalhar com o Fleury, ‘lá a gente ganha mais, né doutor?’ Já morreu, coitado”, interveio Bonchristiano.
José Campos Correia Filho, o Campão, era um conhecido torturador – dos mais cruéis – segundo Percival de Souza, e membro do Esquadrão da Morte. Além de motorista do “doutor”, ele conduzia cadáveres levados do DOPS na calada da noite para desová-los nos cemitérios de periferia, segundo o próprio Bonchristiano.
No final de novembro de 2011, o governador Geraldo Alckmin acatou o lobby da Associação de Delegados de São Paulo (cujo patrono é o falecido delegado Antonio Ribeiro de Andrade, o primeiro chefe de dr. Paulo no DOPS) e mandou para a Assembléia Legislativa um projeto de lei que equipara as carreiras de delegados de polícia, procuradores e promotores, sob o argumento de que a polícia civil é judiciária, e portanto deve ser ligada ao Poder Judiciário e não à Secretaria de Segurança Pública.
O projeto, que o “doutor” Paulo muitas vezes defendeu em nossas entrevistas, faria sua aposentadoria pular dos atuais 11 mil reais para cerca de 20 mil reais, de acordo com os cálculos que ele mesmo fez.
A partir do momento em que o acalentado projeto foi enviado para a Assembleia, o ex-delegado resolveu encerrar nossas conversas.
Retornei uma última vez a seu apartamento, em janeiro deste ano, para checar alguns dados e ele deixou escapar o trecho de uma conversa que tive com um dos meus filhos, por celular. Estava disposto a me assustar.
Na despedida, preveniu-me mais uma vez sobre o “perigo” que “nós dois” estaríamos correndo se eu levasse adiante qualquer investigação sobre a localização dos corpos desaparecidos, advertência que fez desde a primeira entrevista. Perdi a paciência: “Mas, doutor, quase todo mundo que o senhor conheceu naquela época já morreu! Nós vivemos em uma democracia, ninguém vai matar assim um jornalista ou um delegado aposentado”.
“Isso é o que você pensa”, retrucou. “Os que hoje ocupam os cargos daqueles, antigos, também assumiram o compromisso de proteger o pacto”, afirmou. “Não tem isso de democracia, minha cara jornalista, eles fazem o que precisa ser feito. Se alguém é atropelado ou baleado no trânsito, é uma coisa que acontece, em São Paulo. Não quero ver você esticadinha no chão”.
Quando entrei no taxi para ir embora, refletindo sobre quem afinal estaria ameaçando quem, lembrei de uma ocasião em que nossas relações eram mais amistosas e pude lhe perguntar por que “eles” tinham enterrado os corpos, em vez de atirá-los ao mar ou incendiá-los para apagar definitivamente as provas.
De pé, na sala decorada com os estofados confortáveis, rodeados por mesinhas enfeitadas com fotos de família e bibelôs de inspiração religiosa, Bonchristiano reagiu: “Nós somos católicos, pô!”.

O nazismo/fascismo era de direita

Um dos mitos mais repetidos pela nova extrema-direita é que o nazi-fascismo seria “esquerdista”. Com base no que dizem isso?
Se você perguntar, dirão que é porque o nazi-fascismo teria supostamente aprofundado a intervenção do Estado na economia. Alguns dirão que a ditadura nazi-fascista combateu os “capitalistas judeus” e até citarão uma frase de origem duvidosa. E o mais repetido, dirão que o partido hitlerista tinha o termo “nacionalsocialista” em seu nome.
Nomes de partidos
Qualquer um que acompanhe a política partidária-eleitoral brasileira adquirirá uma convicção firme: o nome do partido tem pouco ou nada a ver com o conteúdo das suas práticas. Termos como “nacional”, “democrático”, “popular”, “progressista” ou “social” são tão banalizados e usados por partidos tão diferentes (ou excessivamente iguais) entre si que perderam o sentido.
O partido de Hitler era o NSDAP – “NazionalSozialitisch Deutsche Arbeiter Partei” (Partido Nacionalsocialista Operário Alemão). O “NazionalSozialismus” era abreviado como “Nazismus” e considerado a versão alemã do nazi-fascismo. Na Espanha os fascistas se chamavam “falangistas”, na Croácia “ustaches”, na Romência, “guardas-de-ferro”, no Brasil “integralistas”, e na Itália, “fascistas”.
A ideologia nazi-fascista era um amalgama de racismo, machismo, conservadorismo, militarismo, anti-semitismo, anti-marxismo e expansionismo. A organização partidária de Hitler recebeu forte apoio financeiro e político dos principais capitalistas alemães, com exceção daqueles que origem judaica.
Frases
Não é muito difícil atribuir uma frase a alguém: basta criar uma frase e dizer que fulano de tal a disse. Uma pessoa viva pode te acusar de difamação e calúnia se você fizer isso. Quando você faz o mesmo em relação a uma figura histórica, é importante ter provas.
Os reacionários adoram criar memes estúpidos atribuindo supostas frases anticapitalistas a Adolf Hitler. Em geral, sem fonte alguma, mas muito raramente, algumas frases citadas tem fontes duvidosas. Por mim, prefiro uma base mais sólida, então recorro a um livro que Hitler publicou em vida e que não é difícil de achar na internet, o “Mein Kampf” (Minha Luta).
A quem tiver estômago para os delírios de Hitler, pode conferir um conjunto de frases sobre o marxismo aqui. Citarei um trecho, que evidencia a extrema naturalização das desigualdades sociais e o anti-igualitarismo do discurso hitlerista:
”A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.”
Judeus e capitalismo
Um típico mito anti-semita é a associação entre judeus e capitalismo. Segundo essa maluquice, os judeus seriam riquíssimos capitalistas, e vice-versa, com algumas poucas exceções. Os judeus conseguiriam essa riqueza por meio de alguma conspiração mundial, ou usariam essa riqueza em alguma conspiração mundial, tudo muito malvado e conspiratório. Perfeito para você ter um culpado universal para as suas frustrações pessoais, sem precisar ser um “revoltado contra ‘o sistema’”. Não existiriam crises cíclicas, luta de classes, guerras imperialistas… tudo não passaria de uma conspiração judaica.
É claro que se trata de uma argumentação paranoica e sem fundamento empírico. O capitalismo não tem necessariamente conteúdo étnico: existem capitalistas de todas as etnias. O único lugar onde quase todos os capitalistas são judeus é Israel, por razões óbvias. Em outros países do mundo, os judeus são minoria na população e também entre membros da burguesia.
De fato, a ditadura nazi-fascista expropriou os bancos e as grandes empresas pertencentes a judeus, apenas para entregá-los para os capitalistas de suposta pureza racial alemã. Foi uma esperteza de grupos empresariais apoiar o nazi-fascismo para poder se apropriar dos bens dos capitalistas de origem judaica.
A relação do nazi-fascismo com a esquerda e com a direita
Não é muito difícil descobrir qual era a opinião de Hitler sobre a esquerda, que na República de Weimer era representada principalmente pelos socialdemocratas, comunistas e anarquistas. Hitler os considerava tão inimigos quanto os judeus, um mal absoluto, integrantes de alguma grande conspiração maléfica para destruir a pureza racial e moral da nação.
Já a direita tradicional alemã não era alvo de tanta hostilidade. Na verdade, essa direita tradicional se aliou aos nazi-fascistas em 1933 para formar um governo de coalizão chefiado por Hitler, que depois também conseguiu dos seus aliados a autorização para decretar o estado de sítio (encerrado apenas após a morte do ditador).
Depois disso, não foi difícil para Hitler usar o poder absoluto que a burguesia e a direita lhe concederam para aniquilar os seus inimigos políticos com prisões, tribunais de exceção, torturas, campos de concentração e execução sumária. Sobrou até para um grupo dentro do seu próprio partido, mas sem dúvida alguma os alvos principais foram os partidos de esquerda e sindicatos de trabalhadores.
A política econômica do regime nazi-fascista
Uma das alegações falaciosas sobre o suposto “esquerdismo” de Hitler seria a sua política econômica. Segundo um certo discurso neoliberal, a direita prega “menos intervenção” e a esquerda “mais intervenção”. É uma oposição simplista e maniqueísta, que ignora a luta da esquerda por igualdade social em oposição à naturalização das desigualdades sociais promovida pela direita.
A política econômica nazi-fascista nada tinha de socializante. Eram medidas anti-crise e militaristas, suspendendo o pagamento da dívida externa que sufocava o Estado, regulamentando mercados e ampliando gastos públicos para proteger e garantir a expansão dos negócios privados, priorizando acima de tudo o investimento militar.
Um fato pouco conhecido é que a ditadura hitlerista implantou o primeiro programa de privatização massiva de empresas estatais e serviços públicos da história. Pode-se dizer, portanto, o governo nazi-fascista se destacou por ser mais economicamente liberal que outros da mesma época. A adoção de medidas “keyneseanas” foi uma decisão pragmática diante da crise, e não uma opção ideológica dos nazi-fascistas.
Por que a extrema-direita insiste nessa mentira?
Alguns direitistas preferem saídas retóricas como “todo extremismo é mau” para se referir ao nazi-fascismo, sem negar que tenha sido um movimento político de direita. Outros direitistas simpatizam abertamente com o nazi-fascismo e tentam convencer os outros que não existiram campos de extermínio onde opositores e minorias eram torturados, escravizados e exterminados em escala industrial, apesar de estes fatos já estarem amplamente comprovados por uma grande massa de documentos e testemunhos.
Existem aqueles direitistas que tentam jogar o nazi-fascismo no colo da esquerda, com as falácias que foram desmentidas acima, sem grandes dificuldades. Eu pessoalmente acredito que é pura e simples propaganda. A direita tenta demonizar a esquerda como um mal absoluto, e heroicizar a direita como salvadora da pátria.
Não deixa de ser irônico que essa “nova direita” neoconservadora e neoliberal que faz essa propaganda enganosa tenha muitas ideias em comum com os nazi-fascistas: o antimarxismo, a paranoia conspiratória, o militarismo, o policialesco, o racismo/xenofobia, o machismo/homofobia, o conservadorismo religioso, a sacralização da propriedade privada e a defesa da supremacia nórdica-ocidental. Não é muito difícil perceber que o “meritocratismo” da nova velha direita é um eufemismo para o darwinismo social.

“A Revolução é, sobretudo, um processo de futuro”



Em meados da década de 1960, um educador brasileiro envolto em trabalhos de alfabetização em seu país se dava conta de que o processo de educação universal era um método pedagógico opressor.

Ele denominou esse processo como uma pedagogia bancária, pois percebeu que nela prevaleciam relações em que o banqueiro (qualquer sistema de educação) depositava em uma conta (qualquer educando) uma quantidade de capital (conhecimento) para logo ser reinvestido em seus negócios (o mercado de trabalho). Essa pedagogia era um método vertical no qual se mantinha e reforçava o status quo da sociedade burguesa.
Este educador, chamado Paulo Freire, propôs um método distinto no qual o educador se questionava e assim se educava, permanentemente, em diálogo com os educandos. Essa nova forma pedagógica, denominada Metodologia de Educação Popular (EP), ou Pedagogia da Libertação, sustentava que a partir do educando, fazer os processos de aprendizagem horizontais e participativos, e utilizar uma filosofia educativa que se pusesse no lugar dos oprimidos, seria a única forma de, entre todas, conseguir a liberdade humana.
Quase 50 anos depois, a discussão sobre a EP deve enfocar quais são os novos paradigmas da Educação Popular, ou melhor, como desenvolver uma metodologia e uma teoria da EP incorporando o legado de Paulo Freire e fazendo-o avançar.
Com este objetivo, a 23a. Feira Internacional do Livro em Cuba, a Associação de Pedagogos de Cuba (APC), o Conselho de Educação Popular da América Latina e do Caribe (CEALL), o Centro Fé e Cultura Loyola da Companhia de Jesus e o Centro Memorial Dr. Martin Luther King, Jr. (CMLK) e a Embaixada do Brasil convocaram um seminário de três dias acerca da vida e da obra do pedagogo brasileiro Paulo Freire.
Um dos conferencistas convocados, o teólogo, educador e escritor brasileiro conhecido como Frei Betto (autor de 53 livros editados no Brasil e no exterior), e vencedor do prêmio Jabuti de 1982, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, foi quem trouxe para Cuba em meados da década de 1980 a proposta de incluir dentro de nossa sociedade em revolução a Metodologia da Educação Popular (EP) ou Pedagogia da Libertação.
Você é um assíduo visitante da Feira do Livro de Cuba, por que traz, precisamente agora, a figura de Paulo Freire à Feira?
Frei Betto – Bem, na verdade esse tema não foi introduzido por mim. O padre Román, um jesuíta cubano que vive aqui em Havana, é aficionado por Paulo Freire. Ele, junto com o Centro Martin Luther King e a Embaixada do Brasil, decidiram fazer este seminário. Convidaram-me porque eu sempre fui amigo de Freire e porque escrevemos juntos o livro Essa escola chamada vida (1988). Os organizadores da Feira estiveram de acordo, e fizemos em três sessões: uma no Centro Cultura e Fé, da Igreja de Reina, outra na Sala Portuondo de la Cabaña e a última, na Casa das Américas.
Neste seminário você explicou que o processo de educação é, em si mesmo, ser político. Você acredita que a Metodologia de Educação Popular – idealizada por Paulo Freire – diga algo a Cuba hoje?
Talvez a metodologia de Paulo Freire possa ajudar o processo cubano. Nas escolas cubanas existe uma educação formal que não facilita a entrada da metodologia de Freire. Mas essa é mais adequada para os processos dos movimentos sociais: os Comitês de Defesa da Revolução (CDRs), os sindicatos, as brigadas, a Federação dos Estudantes Universitários (FEU). Nestes lugares, seria muito importante que as pessoas conhecessem um pouco desta metodologia revolucionária.
Minha preocupação é que, agora que Cuba faz algumas reformas, existe um setor privado que tenta me fazer pensar em somente ganhar dinheiro e que já não tenha este sentido próprio de Cuba construir um país no qual todos tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Para lutar contra isso é necessário um trabalho permanente de educação política, moral e ética. Estou convencido de que Paulo Freire com sua metodologia pode ajudar nessa educação.
Você enxerga a educação popular como uma metodologia ou como uma filosofia de vida?
É uma metodologia que parte do povo e da gente simples: um camponês, um trabalhador, um empregado. É uma metodologia com uma visão revolucionária, progressista. Em geral, a educação que existe mundialmente é o que Paulo Freire denunciava como “bancária”, porque o pai ensina ao filho, o professor ensina ao aluno, o dirigente político ensina ao povo. Estes (o padre, o professor, o dirigente) são portadores de um bem (o conhecimento) que depositam, semelhante a uma transação bancária, na cabeça dos outros (o filho, o aluno, o povo). Freire introduziu uma concepção dialética na educação, concebendo-a como um processo de prática-teoria-prática. Ou seja, que sempre deve partir das práticas das pessoas sistematizá-las para elaborar a teoria, e logo voltar à prática de uma maneira reforçada.
Para desenvolver essa dinâmica de prática-teoria-prática, a Educação Popular propõe uma horizontalidade na relação dos seres humanos com seu entorno. Entretanto, os livros têm uma visão mais iluminista de aprendizagem. Como você conjuga a proposta da EP com sua obra literária?
De uma maneira muito simples. O não ficcional de minha obra parte da prática das pessoas. Ou seja, todos os meus livros – inclusive Fidel e a religião (1985) – são livros que partem da prática cotidiana do povo, dos fenômenos da realidade e da história. Existe aqui uma formulação sistematizada que é própria da linguagem literária. Para quê? Para devolver às pessoas o resultado de suas práticas sistematizadas. É por isso que esses livros têm tanto impacto.
Logo, ou por meio dos livros ou por meio de um monitor que está junto com as pessoas ajudando a sistematizar, é que se aprende esta sistematização. Ao mesmo tempo que, por exemplo, vou sistematizando a prática de um sindicato, eles vão recebendo de volta – de uma maneira mais elaborada e compreensível. É o processo pelo qual se vai contextualizando sua tarefa.
Em sua apresentação do seminário na Casa das Américas você afirmava que Paulo Freire foi fundamental para todos os processos de libertação da América Latina nos últimos 40 anos. Mas a Revolução Cubana tem 55 anos. O que bebeu, bebe ou deve beber de Paulo Freire e sua Pedagogia da Libertação o processo social da Ilha?
A Revolução Cubana é anterior a Paulo Freire, mas sem sabê-lo adotou a metodologia que Paulo Freire sistematizou. Quando Fidel chega no desembarque do Granma e tem mais gente que fuzis, e se encontra com muitas dificuldades, ele fez um trabalho de educação popular com os camponeses. Isso é o que criou o Exército Rebelde e permitiu a vitória da Revolução.
Paulo Freire não inventou do nada. Ele escolheu a história das práticas políticas da história humana. A Revolução Cubana adotou o método de Paulo Freire antes que existisse. Freire fez uma sistematização do conhecimento anterior da história das práticas de trabalho com os povos, sobretudo, do conhecimento das práticas sociais do Brasil – das ligas camponesas, do trabalho que fez de alfabetização, dos movimentos populares. Por aí veio a matéria-prima de sua metodologia pedagógica.
Diria que Cuba deveria tomar para os movimentos sociais que existem aqui (a FEU, os sindicatos, a Federação de Mulheres Cubanas) a possibilidade de criar uma emulação [estímulo] ética-moral-ética. Isto seria muito importante no processo das reformas de Cuba.
Apesar dos múltiplos processos libertadores que existem hoje na América Latina, com utopias socialistas e intenções de criar um mundo melhor, todavia temos um mundo onde existe a dominação de uns poucos homens sobre o resto da humanidade. Como poderia se construir um conhecimento libertador?
O processo de dominação hoje é de uma classe muito rica sobre o restante. Por exemplo, acabam de divulgar a informação de que atualmente 85 pessoas no mundo possuem a riqueza de 3,5 bilhões de pessoas. Em um ônibus podem viajar, perfeitamente, 85 pessoas e elas têm o que devia ter a metade da humanidade. Isto explica a diferença social impactante que existe no mundo. Os processos libertadores não são definitivos.  A queda da União Soviética demonstrou que é um equívoco pensar que a revolução está feita e que já é [um fato] definitivo. A revolução é, sobretudo, um processo de futuro, porque cada geração tem que ser educada novamente no socialismo. Outro equívoco é pensar que quem nasce no socialismo é socialista. Não. Todos nascemos capitalistas. Todos os bebês são muito capitalistas: centrados neles e no que necessitam, no que os atendam.
Agora, esse processo de ensinar solidariedade, altruísmo, participação resulta de uma educação. Aí Paulo Freire pode ajudar muito. E não somente Freire, vocês têm aqui muitos processos pedagógicos revolucionários. Eu sei que os CDRs aqui já não funcionam tanto como antes, talvez porque ao início da Revolução tinham um caráter de defesa do bairro. Agora a Revolução está consolidada e os Estados Unidos sentem que não podem fazer um ataque direto a Cuba. Mas têm outro problema: o inimigo principal está dentro e é o absentismo, a preguiça, a acomodação, o espírito capitalista. Então aqui os CDRs têm um papel importante. A Educação Popular poderia ajudar, especificamente, para a recuperação dos CDRs e para a mobilização da sociedade civil em defesa da revolução.
Como estão os processos de educação na América Latina?
É uma educação, em geral, muito capitalista, muito bancária, muito de cima para baixo. Tem conteúdos muito europeus, que não têm nada em conta com a situação do povo. Está descontextualizada.
É uma educação para formar mão de obra especializada para o mercado de trabalho, não para formar homens e mulheres felizes e dignos. Entretanto, há muitas exceções.
Por que você disse que a América Latina “o encanta e o preocupa”?
Me encanta porque eu vivo aqui e vejo que há mudanças significativas. É o único continente do mundo onde neste momento existe esperança: existem muitos governos progressistas; a CELAC tem sido uma maravilha com esse consenso de todos os países da América Latina em apoio a Cuba, em apoio às propostas de unidade sem participação dos Estados Unidos nem do Canadá. Isso é um avanço tremendo.
Me preocupa porque todo esse processo é muito frágil todavia. A Venezuela está demonstrando isso. Não se pode dizer que está tudo consolidado. Somente se vai consolidar se nós pudermos organizar o povo. Não se consolida um processo de Revolução Bolivariana por slogans e carismas. Deve ocorrer muito mais que isso. 


Força Nacional de Segurança: da origem à desfiguração

Luiz Eduardo Soares, que idealizou o grupo, revela: ele foi concebido para investigar e melhorar as polícias — nunca para funcionar como tropa auxiliar a elas
O senhor criou a Força Nacional de Segurança, que posteriormente se transfigurou e se afastou bastante de sua concepção original. Para muitos, a Força Nacional de Segurança Pública, hoje, além de inconstitucional, representa uma contribuição substantiva para a militarização do trato com a segurança pública no Brasil. Como avalia a Força Nacional de Segurança e os convênios que ela realiza com governos estaduais?
Eu tive a ideia da Força de Segurança Nacional como a constituição de um grupo policial civil de investigadores das polícias. Eu sentia que nós precisávamos constituir um grupo para investigar as polícias. Os nossos problemas estão nas polícias, sobretudo, e era indispensável que esse grupo tivesse autoridade, autonomia, independência e mecanismos de investigação sofisticados. É muito grave o que acontece nas polícias brasileiras e, particularmente, no Rio de Janeiro.
A Força Nacional seria, então, composta por uma seleção de policiais civis de diversas partes do Brasil. Porque essa era uma matéria urgente e nós não tínhamos tempo para formar uma polícia nova. Pra formar uma polícia nova, você precisa de 15 anos, até os primeiros formados alcançarem um nível de competência e de experiência para enfrentar um desafio dessa magnitude. Nós precisávamos utilizar o que de melhor o Brasil dispunha.

O diretor seria o diretor da PF, pra evitar competição com a PF. E por que não a própria PF? Porque ela não tinha mais gente suficiente. Nós precisávamos de um grupo bastante numeroso e com esse tipo de foco. E esse grupo se desconstituiria depois da sua missão cumprida, deixando ensinamentos. Porque a partir daí nós teríamos mais razões ainda para transformar as polícias e nós compreenderíamos a necessidade de acompanhar as polícias de outra maneira. Seria muito educativo, também.
Era essa a ideia e houve um acolhimento positivo. Depois, quando eu fui ver nos jornais, virou o contrário disso.
A Força de Segurança Nacional virou uma força militar e de presença ostensiva nos Estados. Isso é completamente absurdo e ridículo, porque a sua presença no Rio de Janeiro, por exemplo, é patética. Nós temos no Rio 50 mil policiais, em São Paulo são 100 mil.
A Força Nacional tem um grupo muito limitado, e esse grupo não tem nem a experiência que uma cidade complexa como o Rio exige. Eles vêm ganhando diária, ganhando muito mais do que os que trabalham no Rio, e estes têm de ensinar a eles como se portar. Não faz nenhum sentido. E não agrega de nenhuma forma, nem mesmo numericamente. É mais uma presença política, simbólica.
Eu compreendi a visita dos secretários de segurança do Rio e de São Paulo ao ministro da Justiça como uma manobra política com o propósito de dividir com o PT os custos da repressão. Só isso. Eles não buscam, a meu juízo, nenhuma cooperação efetiva. Isso poderia estar na pauta desde sempre, mas nunca houve um movimento no sentido de se buscar uma cooperação efetiva e sincera.
Porque o que manda na dinâmica dessas escolhas é a política menor, a disputa partidária etc. Então esse movimento não é mais do que dar, no PT, o abraço do afogado: “Nós vamos nos afogar com a repressão, nos nossos Estados? Então vamos juntos, vocês não vão ficar fora dessa! Vamos pagar juntos a conta do desgaste político”.
E o ministro [José Eduardo Cardozo] tem aceitado esse compartilhamento de custos, porque ele nunca usou nenhuma modulação ao discurso repressivo em vigor nos Estados. Ele nunca sugeriu uma alteração nesse quadro.
E aí a situação nacional é patética. A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário – que eu respeito, como pessoa, como militante – se esgoela denunciando a barbárie e o ministro abençoa o governo do Maranhão, vai dar mais verbas e recursos. Assim como as verbas continuam indo para as polícias, inclusive a do Rio, que perpetram um genocídio.
Os autos de resistência continuam se multiplicando. O governo federal é cúmplice de tudo isso, abençoa esses processos, e a ministra denuncia as barbaridades, como se ela fosse presidente de uma ONG, de uma entidade da sociedade civil. É uma forma do governo se proteger incorporando a própria crítica. Mas politicamente é absurdo, não tem coerência nenhuma.
O ministro da Justiça diz que preferia morrer a ter de cumprir pena em um presídio brasileiro, que os presídios brasileiros eram masmorras e que a LEP (Lei de Execução Penal) não era cumprida. Depois de dois anos no cargo.
Isso só me parece razoável se você, depois de dois anos no cargo, descobre isso tudo e então apresenta à nação um plano emergencial de intervenção a partir deste reconhecimento. Mas ele apenas reiterou o que já se sabia e não apresentou essa disposição urgente de intervenção.
O senhor acha que 2014 é um ano em que as manifestações ganharão força novamente?
Olha a minha ousadia: eu não acho, eu tenho certeza (risos).
Eu estou convencido de que acabou o sossego para as elites brancas brasileiras. A desigualdade está desnaturalizada. E as jornadas de junho quebraram a cristaleira. Isso vai se derramar pelas ruas, não tem retorno.
Não há mais como sustentar esse nível de hipocrisia, de brutalidade do Estado. E não vai haver apaziguamento possível. Essas iniciativas, como os “rolezinhos”, são muito diferente do “não”, do “fora não sei o que”. Vamos para o shopping, vamos fazer diferente, vamos inventar uma nova forma de lidar com isso.
Não que nós repitamos, em escala, o que houve em junho. Vai haver muita manifestação, com outra qualidade, outras características. Mas como eu não só estudo os movimentos, mas sou parte deles, eu dou o testemunho de que nós vamos pras ruas. Isso vai acontecer, a não ser que nos impeçam. Mas não há força suficiente para que nos impeçam.