Militares que resistiram ao golpe de 1964

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Segundo historiador, militares foram proporcionalmente grupo mais perseguido
O coronel Vicente Sylvestre, ativo nas entidades de classe da corporação, era chefe do Estado-Maior do Comando do Policiamento Militar quando foi sequestrado, em sua casa, em 9 de julho de 1975, por integrantes do DOI-Codi que promoviam uma operação contra militares ligados ao Partido Comunista. 
"Fui levado primeiro para o quartel-general da Polícia Militar e de lá segui um caminho que é indigno para qualquer ser humano", disse Sylvestre. Ele relembrou que foi barbaramente torturado porque as forças da repressão achavam que ele teria informações valiosas, que poderiam pavimentar um caminho de sucesso para os que o prenderam. 
"Mas a minha luta era muito clara, sempre feita dentro das entidades de classe da corporação; contrariava as diretrizes da ditadura, mas era feita abertamente. Eu não tinha nada a confessar. Como eles não se conformavam com isso, me torturaram", disse. 
Em outubro, segundo Sylvestre, ele foi submetido a um Conselho de Justificação " "não deixavam meu advogado nem entrar na sala da audiência, que durou quatro dias" ", que decidiu pela sua expulsão das Forças Armadas. 
Em 1984 começa a luta no Judiciário para recuperar seus direitos, e a Justiça decide pela reintegração dos expulsos. "Mas eu imediatamente pedi férias, e em seguida apresentei meu pedido de passagem para a reserva. Depois daquele drama chocante, não tinha mais condições de continuar", revelou. 
Após intervenção do deputado Adriano Diogo, Sylvestre lembrou ainda que descumpriu uma ordem para evacuar o prédio da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antônia, em 1968, onde se encontravam estudantes e professores em confronto com alunos da vizinha Universidade Mackenzie e membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). 
"Aleguei que os professores estavam lá defendendo um patrimônio. Então me disseram que a ordem de invasão vinha do próprio governador. Exigi que essa ordem viesse por escrito. O resultado é que fui destituído da operação, veio a Cavalaria e fez a invasão", lembrou Sylvestre. 
Perseguições e cassações
A comissão também ouviu Eugênia Zerbini, filha do general Euryale Zerbini, um legalista que a ditadura retirou do Exército, e de Therezinha Zerbini, fundadora do Movimento Feminino pela Anistia. Eugênia relembrou o desencanto do pai, que, cassado, foi trabalhar na iniciativa privada e estudar filosofia, sem nunca perder o gosto pela vida. Falou também da mãe, ativista contra o golpe militar desde a primeira hora e presa pela Operação Bandeirantes em 1970. Numa visita para levar roupas à mãe detida, Eugênia foi violentada, aos 16 anos, nas dependências da Oban, na rua Tutoia. 
A audiência da comissão também relatou os casos do coronel Alfeu Alcântara Monteiro, contrário ao golpe, que, segundo relatos, teria sido fuzilado pelas costas quanto entrou em troca de tiros com o comandante da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, por não aceitar uma ordem; e do sargento Manoel Raimundo Soares, morto nas dependências do DOI-Codi de Porto Alegre, para onde retornara, em 13 de agosto de 1966, depois de ficar detido no presídio-ilha do rio Guaíba. Seu corpo foi encontrado em 24 de agosto, com as mãos atadas às costas, no rio Jacuí. 
"Proporcionalmente, os militares foram o grupo mais atingido por perseguições e cassações", alertou o historiador Paulo Cunha, da Unesp, em pronunciamento à comissão. Segundo ele, de 6.500 a 7.500 militares foram perseguidos, cassados, presos ou torturados, número que pode aumentar com os dados da PM. 
Segundo o coordenador da Comissão estadual da Verdade, Ivan Seixas, é importante revelar esses casos esquecidos, pois estas vítimas sofreram a "crueldade de serem mortas duas vezes: pela repressão e pelo esquecimento". A prisão de policiais e militares mostram a amplitude da repressão, completou. 
Operação Radar
Em 1973, foi deflagrada a Operação Radar, que foi uma grande ofensiva do Exército para dizimar o PCB, resultando na morte de 11 membros do Comitê Central, além da destruição gráficas clandestinas do partido, e desmantelamento dos seus diretórios estaduais. Um dos presos foi o tenente da reserva da Polícia Militar paulista, José Francisco de Almeida, o Piracaia, militante do PCB, e dirigente de associação, que morreu sob tortura no DOI-Codi em 8/8/1975. Sua morte foi encenada como enforcamento, na mesma cela e do mesmo jeito que, cerca de dois meses depois, fizeram com Vladimir Herzog e, posteriormente, com o operário Manoel Fiel Filho. 
O outro caso que foi lembrado foi o do coronel da Polícia Militar e militante do PCB José Maximino Andrade Neto, reformado em 1964 por não concordar com o golpe militar. Também foi preso em agosto de 1975, ficando desaparecido por uma semana. Não resistiu às torturas, sofrendo um infarto do miocárdio, provavelmente por conta de sua idade avançada. Divergem os relatos sobre como foi jogado na rua, diante de sua casa, pois há quem diga que ele já estava morto, outros dizem que ele foi socorrido e morreu no hospital. 
Lideranças presas
O tenente reformado da PM Francisco Paz era soldado da antiga Força Pública, sendo promovido a sargento em 1965. Ele passou a presidir a Associação de Cabos e Soldados da já Polícia Militar a partir de 1970. Sobre o contexto histórico anterior ao golpe de 1964, ele ressaltou que uma das primeiras vítimas foram os militares, que tiveram as diretorias de suas associações, tanto de cabos e soldados como de sargentos, sumariamente cassadas e substituídas por apoiadores da ditadura. 
Questionado pelo presidente da Comissão da Verdade, deputado Adriano Diogo (PT), Francisco Paz falou sobre o que chamou de "processo de militarização da segurança pública", resultante da fusão entre a Guarda Civil e a Força Pública, que deu origem às polícias Civil e Militar, esta militarizada nos moldes do Exército. Contou ainda da tradicional presença do PCB nas fileiras policiais e sobre sua prisão pela Operação Radar em julho de 1975. Paz comentou ainda os casos de José Francisco de Almeida e de José Maximino Andrade Neto. 
O alcance da Operação Radar ainda foi comentado por Waldemar Martins Lisboa, que também era praça da Força Pública quando do golpe de 1964. Disse que a operação surgiu "no período de loucura total da ditadura", que queria dar fim de qualquer jeito aos comunistas, o que culminou com a chacina da Lapa, em 1976. 
Homenagens
Os militantes brasileiros mortos vítimas das ditaduras militares do Cones Sul foram também lembrados. Ivan Seixas, para homenageá-los, leu o memorial do capitão da Força Pública paulista Wânio José de Mattos Santos, que era militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso pela Oban em 1970, Wânio foi ao Chile como um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço em 1971. 
Quando do golpe de 1973, foi preso pela polícia chilena do Estádio Nacional, onde morreu de peritonite por falta de atendimento médico. A responsabilidade por sua morte foi reconhecida pelo Estado chileno, que indenizou sua família. 
O ex-sargento da Força Pública Pedro Lobo falou sobre sua militância na VPR. Disse que a opção pela resistência armada não foi uma escolha dos opositores da ditadura, pois foi o golpe de 1964 que começou com a violência, "ao cassar sindicatos e rasgar a Constituição". Falou que não se arrepende de suas ações, e considerou "verdadeiros herois" os que tombaram em combate. 
O capitão Carlos Lamarca "tinha vontade de vencer, nunca se dobrava", disse o ex-sargento Darci Rodrigues na homenagem que prestou quando discorreu sobre a trajetória de luta de Lamarca. Ao final da reunião, que considerou "muito rica", Rosa Cardoso lembrou que a estrutura da repressão e das polícias voltará a ser abordada em nova reunião conjunta no próximo dia 22/11.
Fonte: ALESP

Militares relataram à Comissão da Verdade casos de perseguição, prisões, torturas e mortes

Por Thaís Barreto
A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” realizou audiência pública em parceria com a Comissão Nacional da Verdade (CNV) para tratar dos casos de perseguição e mortes de militares que se opuseram ao Golpe militar de 1964. O encontro, realizado nesta segunda-feira (11/11), mostrou que a violência se estendeu aos familiares das vítimas.
"Esta audiência tem como objetivo mostrar que nossos militares não são torturadores e golpistas. Nossos militares são aqueles que resistiram ao golpe", afirmou Ivan Seixas, coordenador da Comissão "Rubens Paiva". Rosa Cardoso, membro da CNV, destacou ser importante reconstituir o imenso painel de ilegalidades e compreender a extensão das graves violações dos direitos humanos.
Segundo o pesquisador e professor Paulo Cunha, este é um aspecto pouco conhecido historicamente. Muitos militares haviam adotado posturas em defesa das liberdades democráticas e por isso sofreram represália. “Eles pagaram um preço alto. Muitos foram expulsos, presos, afastados, julgados. Poucos retornaram”, explicou Cunha.
Entre os assassinatos de militares até hoje conhecidos, a Comissão detalhou os casos da morte de Manoel Raimundo Soares, Alfeu de Alcântara Monteiro, Wânio José de Matos, José Maximino de Andrade Netto e prestou homenagem a Carlos Lamarca, a partir de depoimentos dos sobreviventes Darcy Rodrigues, Francisco Paz, Waldemar Lisboa e Pedro Lôbo.
“Eu protesto até hoje contra o fato deles nos chamarem de terroristas. A Ditadura é que foi terrorista. A Ditadura é que rasgou a Constituição. A Ditadura é que tirou do cidadão o direito a um julgamento justo. Por pior que seja o crime, por pior que sejam as intenções, a pessoa deve ter direito a um advogado. Eu e meus amigos não tivemos esse direito", recordou Pedro Lobo, Major reformado da Polícia Militar, amigo de CarlosLamarca.
Militares vítimas da violência
O tenente Francisco Paz integrava na época a Força Pública e testemunhou que os membros do próprio Exército estão entre as primeiras vítimas do regime ditatorial. A partir de janeiro de 1970, Paz presidiu a Associação de Cabos e Soldados e viu a diretoria ser dissolvida por ordem dos golpistas.
“Fui preso no dia 22 de março de 1970. Foi a minha primeira prisão política. Eles queriam saber quais eram os nossos objetivos que era a democratização da carreira da Força Pública. No dia 8 de abril de 1970 houve a fusão da Força Pública com a Guarda Civil, dando origem à Polícia Militar”, relatou Paz. A próxima audiência da Comissão “Rubens Paiva” a ser realizada no dia (22/11) vai tratar mais detalhadamente desse processo.
Houve, então, segundo o tenente Paz, um processo de “militarização da segurança pública". O Coronel Vicente Silvestre relatou que foi sequestrado em casa e conduzido para o DOI-Codi do II Exército em São Paulo no dia 9 de julho de 1975. Sofreu muitas sessões de tortura a ponto de um colega militar pedir que ele fosse enviado para um hospital. “Eu voltei para o DOI-Codi, não foi por isso que as torturas deixaram de acontecer”, destacou Silvestre.
Família atingida
O Coronel Silvestre foi afastado do Exército e impedido de trabalhar tanto no serviço público quanto em empresas privadas. Silvestre e outros militares ficaram em péssimas condições, foram severamente reprimidos por sua postura contrária à ditadura e tiveram que se contentar com uma pensão. Sua mulher recebia como se fosse viúva de um militar. “Esposa viúva de marido vivo”, enfatizou Silvestre.
O presidente da Comissão “Rubens Paiva”, Adriano Diogo, destacou que o coronel Silvestre teve forte atuação para evitar massacre na Rua Maria Antônia em 1968. Vicentecomandava uma unidade do exército na Avenida Angélica quando recebeu ordens para invadir o prédio da USP e questionou o porquê. No outro lado, escutou: - É ordem do governador. Ele respondeu: - Eu quero a ordem por escrito. O coronel acabou sendo substituído e não conseguiu evitar a violência ocorrida no episódio conhecido como a Batalha da Maria Antônia.
Eugênia Zerbini, filha do general Euryale Zerbini (afastado pelo Exército) contou sobre a prisão do pai e da mãe, Terezinha Zerbini. Após a prisão do pai, a mãe de Eugênia, por sua atuação, também acabou sendo presa. Eugênia resolveu visitá-la e levar algumas roupas. Na ocasião, foi coagida por agentes da Operação Bandeirantes no DOI-Codi em São Paulo e sofreu violência sexual.
Eugênia guardou esse segredo durantes muitos anos. Havia decidido evitar maior sofrimento aos pais que integravam a luta contra os abusos da Ditadura naqueles anos tão difíceis. “Eu ia falar para quem?”, disse. Eugênia achava que não deveria contar o ocorrido, temia a reação de quem a ouvisse. Somente após a instalação da Comissão da Verdade no Brasil ela conseguiu desabafar primeiro em uma entrevista à revista Brasileiros e aceitou falar publicamente na Comissão “Rubens Paiva”.

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