Nota de repúdio da Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (FAFERJ) ao lançamento do livro “Os donos do morro” na UERJ. O lançamento do livro “Os donos do morro” é mais uma bola fora da academia em relação às favelas cariocas. O lançamento da obra na UERJ foi marcado por um escracho do movimento comunitário e do movimento estudantil contra o Coronel Frederico Caldas, comandante-geral da UPP, presente no evento. O protesto propôs uma inversão de papéis: a polícia que tanto silencia os favelados, dessa vez foi silenciada pelos manifestantes.
A capa do livro e o material de divulgação é no mínimo infeliz: mostra policiais da UPP de braços cruzados no alto do morro; como os atuais donos das favelas do Rio de Janeiro. Então o objetivo de "libertar" o morro dos “donos-bandidos” é apenas pra trocar os donos?
As supostas “críticas” aos projetos da UPP que dizem constar no livro são um ato de cinismo. O idealizador do livro, professor Inacio Cano, chega a afirmar em entrevista ao portal G1 em 15/10/2014 que o fato do caso Amarildo ter ganho tanta notoriedade só foi possível graças à UPP (!). Se não, seria esquecido ou sequer divulgado. O professor esquece que a mídia só divulga o que quer e da forma que quer, e que a UPP é defendida diariamente em duas edições do RJTV, com direito a policial de comentarista. Que debate é esse sem o outro lado? A entrevista deixa claro que não há críticas às UPPs, mas sim, pequenos “equívocos” que se modificados poderiam fazer com que o projeto fosse melhor implementado.
Então os assassinatos cometidos por policiais são um pequeno efeito colateral de um projeto que está dando certo? Então o estupro de meninas no Jacarezinho por policias da UPP foi positivo para melhorar a UPP? Vamos falar com a família do Amarildo e do DG de que a morte deles deu “notoriedade” às UPPs? Essas opiniões só podem ser proferidas por acadêmicos que estudam a favela de binóculo a partir da varanda do apartamento. O professor Inacio Cano, se referindo ao protesto, diz estar preocupado que “grupos autoritários decidam o que pode ser falado em um local público”. Ora, não é isso que a UPP faz todo dia com nós, favelados e faveladas? O funk toca em todas as boates da playbozada e festinhas universitárias, mas na favela, seu berço, a UPP não deixa.
O Conselho de Juventude da FAFERJ participou do ato para gerar um debate, pois uma mesa com acadêmicos e policiais não é uma discussão representativa. A FAFERJ, que representa mais de 1.800 favelas em todo estado, nunca foi chamada pra discutir nada sobre a pacificação. Não é novidade para ninguém que é um projeto autoritário instaurado de cima pra baixo. O objetivo da pacificação não é paz, mas sim, a militarização da favela e o controle de seus moradores, principalmente, de suas reivindicações políticas.
As perguntas devem ser refeitas: Por que os acadêmicos da UERJ não fazem um debate sobre o tema convidando moradores de favela e lideranças comunitárias? Por que os engenheiros da UERJ nunca fizeram livros sobre como urbanizar as favelas de forma rápida e barata? Por que esta Federação nunca recebeu nenhum projeto de apoio da UERJ, que é sustentada com impostos e trabalho duro de muitos favelados? Onde estão os médicos da UERJ para oferecer melhores atendimentos e condições para as favelas?
Os professores e acadêmicos que nos criticam nunca fizeram um livro, um artigo ou produziram algo que melhorasse a vida do povo do Rio de Janeiro, embora ganhem muito bem pra isso. A FAFERJ quer debater e temos muito que dizer sobre o tema, não precisamos que meia dúzia de acadêmicos numa sala refrigerada escrevam livros e falem por nós!
Finalizamos, lamentando que muitos não tenham entendido o objetivo do ato. Várias pessoas se “indignaram” pelo evento ter sido interrompido, clamando por liberdade de expressão e pensamento, chegando a taxar os manifestantes de fascistas. Isso mostra que a proposta do ato alcançou seu objetivo. Agora vocês sabem como nos sentimos. A troca de lugares nessa situação mostrou exatamente o que passamos diariamente, geração após geração. Infelizmente, a maioria das vezes são os policiais que nos silenciam, com fuzil, tapa na cara, quando não com a vida. Se neste dia o comandante da UPP ficou em silêncio, talvez tenha refletido sobre o que nós sofremos diariamente. Os favelados estão sendo silenciados e mortos desde quando surgiram as primeiras favelas no dia 14 de maio de 1888, logo após a abolição da escravidão.
Seguimos dizendo: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci; E poder me orgulhar, ter a consciência que o pobre tem seu lugar”
Fonte: FAFERJ
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