ABC Cooperativa: empresa de ônibus gerida por seus trabalhadores

A empresa de ônibus ABC iniciou suas atividades em 2001 na cidade de Colônia do Sacramento, no Uruguai, operando uma linha entre o centro histórico e o bairro Real San Carlos. Porém, em meio ao contexto regional de crise econômica, seu proprietário acumulou dívidas que não conseguiria pagar e se viu, no mesmo ano, prestes a abandonar o serviço.
Mas, se o cenário era de recessão, era também de luta: na outra margem do Rio da Prata, operários argentinos recuperavam as fábricas abandonadas pelos patrões e retomavam a produção sob controle coletivo. Os rodoviários da ABC não fizeram diferente: diante da iminência de perderem seus empregos, iniciaram suas assembleias para discutir a proposta de assumir a empresa. A mobilização culminou em setembro daquele ano, quando, em negociação no Ministério do Trabalho, o patrão cedeu aos trabalhadores os três veículos e as demais instalações até 2007.
Surgia aí uma das primeiras empresas recuperadas do país: a ABC Cooperativa, sob “Gestão Operária”.

As assembleias foram mantidas: semanalmente, aos sábados, todos os trabalhadores se reúnem para deliberar coletivamente sobre os rumos da empresa. Desde os menores aspectos, como o horário de almoço, até a gestão dos fundos – quanto do dinheiro arrecadado nas passagens vai ser direcionado aos salários, quanto à manutenção dos veículos, etc. Eleitos por voto, os cargos da presidência e secretarias da cooperativa podem ser destituídos pela decisão de qualquer assembleia. Com isso, a ABC se distingue das demais cooperativas de transporte do Uruguai, em geral geridas por um conselho diretor que se reúne não mais que uma vez por ano com os empregados para apenas informar sobre a situação da empresa.
Contra todos os prognósticos, a ABC voltou a operar sob controle operário e superou as dívidas deixadas pelo patrão falido com a Prefeitura e o Banco da Previdência Social. Mais do que isso, aumentou os salários acima da média nacional e ampliou os postos de trabalho – de inicialmente 9, no ano de 2013 eram já 15.
Não existindo um sindicato de rodoviários em Colônia, os trabalhadores da ABC buscaram solidariedade da UNOTT (União Nacional dos Operários de Transporte) e das cooperativas de ônibus de Montevidéu, com as quais conseguiram financiar a compra de novos veículos por um preço mais barato. Essa articulação chegaria ao fim em 2008, quando a ABC foi expulsa da PIT-CNT por criticar a política governista assumida pela central sindical.
Outro esforço da cooperativa foi de estabelecer uma rotatividade de funções – manutenção, direção, cobrança – em seu interior. Além disso, a ABC criou também uma escola para motoristas de ônibus inexperientes, na qual se formam novos trabalhadores para a própria cooperativa e para empresas de ônibus em geral.
Contrapondo-se à tendência geral das empresas de ônibus que demitiram os cobradores e deram dupla-função aos motoristas, a ABC manteve dois trabalhadores em cada ônibus. Não só por recusar engrossar o exército de desempregados, mas por entender que a existência de um segundo trabalhador no ônibus – disponível a orientar os passageiros, enquanto o motorista se concentra em dirigir – é fundamental para prestar um serviço de qualidade à população.
Em 2006, a ABC criou também um centro cultural num bairro de periferia, onde desde 2010 transmitem uma rádio comunitária, a Iskra 102.9 FM, que pode ser sintonizada em um raio de 20 km.
Se em um primeiro momento o embate dos trabalhadores da ABC foi com o antigo proprietário, após 2001 a gestão operária passou a enfrentar uma batalha com as demais empresas da cidade. Defendendo a implementação de uma “tarifa popular”, a ABC se opôs sistematicamente a todos os aumentos no preço da passagem, por entender que prejudicariam a população de Colônia. Como a aprovação de um reajuste depende da decisão consensual de todas as partes (a prefeitura, que regula o sistema, e as empresas), há anos a ABC barra qualquer possibilidade de aumento.
Isso causou prejuízos à outra empresa, COTUC, que operava há 30 anos na cidade e mantinha relações íntimas com a prefeitura. Quebrada, a COTUC se renovou na nova empresa Sol Antigua S/A. Esta passou a operar três linhas, enquanto a ABC permaneceu operando apenas a do bairro Real San Carlos – e, toda vez que tentou ampliar seus serviços, foi impedida pelo governo.
Em 2009, com apoio do BanDes – o Banco de Desenvolvimento da Venezuela –, a ABC Cooperativa comprou um veículo novo, 0 km, e se apresentou sozinha para a licitação da linha do bairro El General. Na véspera do encerramento do prazo, a Sol Antigua se inscreveu usando, de fachada, um nome diferente: SA S/A. Ao contrário da ABC, que havia investido em novas instalações para oferecer o novo serviço, a SA S/A não apresentou nada, mas mesmo assim ganhou a linha. Desde então, a ABC denuncia o “amiguismo” e o favorecimento ilícito do governo à Sol Antigua, e reivindica a operação linha de El General.
A mesma situação se repetiu em 2012, quando a ABC Cooperativa se apresentou sozinha para a concorrência do transporte na cidade de Carmelo, na província de Colônia, a 80 km da capital. Apesar de ter sido a única empresa a se apresentar, foi recusada.

Com seus sucessos e dificuldades, a experiência de mais de uma década da ABC Cooperativa sob gestão dos seus trabalhadores lança luz a um horizonte possível à luta dos movimentos sociais de transporte no Brasil. Embora já em sua Carta de Princípios o Movimento Passe Livre levantasse como perspectiva estratégica a luta “pela expropriação do transporte coletivo, retirando-o da iniciativa privada, sem indenização, colocando-o sob o controle dos trabalhadores e da população”, de fato essa proposta esteve distante por muito tempo. A vivência massiva de decisão da população sobre o sistema de transporte com a derrubada dos aumentos na tarifa em junho de 2013 deu outra dimensão à questão para os movimentos daqui. Lentamente, ela vai ganhando concretude, como os recentes experimentos de organização temporária de linhas autônomas, como fizeram os moradores do Marsilac; e, principalmente, com o desenvolvimento das formas coletivas de lutas dos trabalhadores rodoviários, que atingiram dimensões inéditas com a onda de greves em todo país em 2014. Nesse sentido, o contato dos movimentos do Brasil com a experiência da ABC e as possibilidades de intercâmbios são muito importantes.
Fonte: Passa Palavra

Nenhum comentário:

Postar um comentário